Relatos de viagens ciclísticas.

sábado, setembro 09, 2006

Vigésimo dia (11/08): rumo Rennes


Sexta-feira já, vinte dias de viagem, longe de casa, nem lembro direito mais como é o meu quarto.
Em Redon coloquei o Pocket pra despertar, mas como sempre deu uma pequena preguiça e demorei uns 20 minutos até me levantar de fato. Comi o resto do chocolate, arrumei as coisas, montei tudo na bicicleta, deixei a chave na gaveta da recepcionista, porque ainda não estava aberto o atendimento e segui viagem às 8h30.
Hoje o percurso é um pouco menor, bom pra chegar mais cedo, ver mais coisas na cidade e poder descansar mais, além de escrever com mais tranqüilidade o diário.
Saí num frio de rachar. Não sei porque todos me diziam que na Bretagna fazia calor, só vejo frio aqui. Saí de casaco e calça. Tanto que era meio complicado pedalar, sem ter comido direito, com esse frio e vento.
Mas pelo menos não era muito o vento contra, só muitas subidas e descidas. Subia e descia, subia e descia, e assim eu ia seguindo a viagem.
Depois de uns 20 minutos de pedal já começou a esquentar um pouco, tirei a calça e continuei. De bermuda, claro. Depois de mais uns 20 minutos, tava meio quente e meio frio. O problema é que o casaco estava segurando o meu suor e a camisa ficava molhada, e com qualquer ventinho fazia um frio extremo nas costas. Resolvi tirar o casaco também. Parei no sol, mas mesmo assim fazia frio ainda, por causa do vento. Continuei a pedalar e logo a camisa secou e eu transpirava melhor, sem acumular o suor e deixar mais frio ainda. Daí pra frente deu tudo certo. Apesar do cansaço eu continuei mais uns quilômetros. Chegou uma hora que não deu mais, parei numa área de pic-nic, que tem mesinhas e latas de lixo, achei isso muito legal e parece ser bastante usado mesmo. Encostei a bicicleta, peguei as comidinhas, estiquei a perna no banco, fiz umas massagens e fiquei por lá cerca de meia hora. Foi a melhor coisa que fiz, afinal de contas eu tinha bastante tempo ainda pra chegar e o trajeto não era muito longo, não como o habitual.
Essa parada foi muito boa, porque as subidas e descidas continuaram, cada vez mais longas as subidas e o vento cada vez mais forte. Tinha vezes que vinham rajadas de vento que me faziam quase parar na pista, ainda bem que isso não era constante, era apenas frustrante. Às vezes em subidas não muito íngremes que daria pra subir mais rápido ou em descidas que daria pra ganhar tempo, vinha uma dessas rajadas ou ainda um caminhão no sentido contrário, jogava bastante vento em minha direção. E os que passavam no mesmo sentido que eu, me davam força.
Uma coisa interessante que aconteceu hoje foi o fato de eu ter achado um pendrive de 256mb jogado na beira da estrada. Na hora olhei, achei que fosse apenas um colar, voltei e vi que era um pendrive mesmo. Peguei, olhei, vi que estava tudo em ordem, coloquei no bolso e segui pensando o porque dele estar ali. Será que caiu? Será que jogaram? O que será que tem gravado nele? Por enquanto nenhuma dessas perguntam estão com resposta e nem sei quando terão, se terão.
Cheguei em Rennes lá pelas 14h30. Teria chego antes não fosse o tanto de subida e vento contra, mas acho que aqui isso é uma constante mesmo e espero que esse vento que está contra, fiquei à favor quando eu descer para o Loire.
Pedalei 70,45km em 4h19, isso chega a ser aperitivo perto dos outros dias. Mas foi bom pedalar um pouco menos e descansar mais. Esses trinta quilômetros a mais que eu faria para chegar a cem, fazem uma diferença enorme, porque de bicicleta isso pode representar mais umas duas horas de pedal, ou seja, mais água, mais calorias gastas e mais esforço e tensão.
Estava tudo nublado ainda, desde a hora que vi as nuvens carregadas, assim que cheguei na cidade, começou a chover, achei melhor procurar logo o albergue. Vi num mapa de ponto de ônibus mesmo onde ficava o albergue e fui direto pra lá. Começou uma garoa fina que estava aumentando, mas logo consegui chegar. Fiz a ficha, paguei o albergue, mas só poderia ir ao quarto depois das 15h, porque estava em limpeza. Aproveitei e fui comer alguma coisa. McDonald's. Me deu vontade de comer isso hoje. Era relativamente barato e vinha fritas e Coca-Cola grande, não é aquela coisa, mas tem cafeína. Pedi o Big Tasty Maxi, que vem mais batata e mais refrigerante, só que o Maxi deles é o normal nosso, refri 500ml e a batata parecia com a nossa, de tamanho. Só o preço era Maxi, 6,80€, mas ganhei um copo promocional da Coca-Cola, mais uma coisa pra carregar, e esse é de vidro. Mas é tão legal, e eu adoro copos.
Acabei de comer, ia sair, e começou a chover de novo. Fiquei no restaurante mesmo dando uma olhada nos mapas, roteiro, ver o que irei fazer amanhã, pra onde irei, qual albergue reservar. Logo a garoa parou, o tempo abriu um pouco e pude sair. Na primeira cabine telefônica que encontrei liguei para o albergue de St. Malo, mas estava lotado para o final de semana. Pensei em ir até Dinan, mas também estava lotado. Fiquei meio saber, mas nesse último ele me disse uma coisa que me fez mudar tudo. Ele disse que se eu tiver barraca, poderia ficar lá, que ele tem espaço pra isso. Eu já estava pensando em comprar uma barraca desde o dia do restaurante abandonado, mas não tinha criado coragem e nem queria carregar mais coisa ainda na bike, mas dessa vez era diferente, porque está chegando o dia 15 e é feriado aqui, vai ser difícil encontrar albergue disponível nessas regiões e talvez nas outras também. Hotel é caro e mesmo outros tipos, como as Gîtes. Camping é relativamente barato e tem bastante por aí.
Eu já tinha o mapa da cidade que peguei no albergue então sabia onde era o escritório de turismo que não havia achado antes, também com medo da chuva me pegar, corri pro albergue. Mas agora o tempo estava melhor. Lá pedi um guia de campings da Bretagna, e realmente tem bastante e são bem completos, com preços acessíveis. Pedi mais uns mapas com as petit route para a moça e munido disso tudo ainda pedi onde eu poderia comprar uma barraca, ela me indicou um complexo de lojas que fica na região sul da cidade. Bom, vamos lá. Cheguei lá, tinha apenas barraca pra 3 pessoas, eu queria pra 2, que era mais barata, mas não tinha, então terei espaço de sobra pra mim.
Atravessei a cidade com a sacola de compras no guidão, fui do extremo sul até quase o extremo norte, deixei as coisas no quarto, juntamente com o resto da bagagem e fui dar um rolé na cidade, filmar alguma coisa. É bem legal aqui, muita coisa pra se ver, muita coisa pra se fazer, como em praticamente todas as cidades pelas quais passei, mas infelizmente não tenho tempo de ficar mais que algumas horas mesmo. Nesse pouco tempo que fico consigo ter uma impressão da cidade, e eu gostei dessa aqui. Ela é bem preparada para os ciclistas, tem um esquema parecido com Lyon de pegar bicicletas e sair andando, depois devolvê-las, não sei ao certo se é gratuito ou não, mas creio que sim. Por isso tem muitas ciclo-faixas e onde não tem, anda-se na faixa dos ônibus, porque aqui dá pra confiar em motorista de ônibus e caminhão sem problemas.
Tanto que liguei para casa, dizer que estou bem, e ver a vida real que ficou por lá, de contas a pagar. Depois liguei para o meu amore, ela mesma atendeu, falamos um pouco das novidades. Eu disse que daqui pra frente iria acampar e ela logo perguntou: mas e o banho? Pois é, todo mundo tem essa idéia de acampamento selvagem, mas aqui tem toda uma estrutura pra isso. Ainda bem, porque assim eu economizo e ainda terei uma outra forma para mostrar no documentário. Acho que assim ele ficará mais rico. E nos campings, creio que poderei conhecer mais pessoas que viajam de forma mais rootZ, de bike ou de trailer. Estou ansioso pra ver no que vai dar isso.
Agora já são quase 22h, porque o tempo voa mesmo e vou dormir, amanhã terei que pedalar bastante se quiser chegar até St. Malo e Mont Saint Michel.
Até o final do dia eu tinha andado 90km em 5h44, ou seja, foi um bom passeio de bike hoje.

Décimo nono dia (10/08): rumo a Redon

Descansando depois do almoço em Nantes
Levantei relativamente cedo, arrumei as coisas e fui procurar algum lugar aberto pra comer. Achei uma boulangerie, comprei um sanduíche que estava muito bom e pra acompanhar como sobremesa um doce de chocolate também muito bom que deu uma boa força pra poder pedalar mais um dia todo. Gastei 4,55€, no hotel seriam 7€, mas com certeza seria um café mais completo, ou pelo menos com café. Para mim interessava apenas gastar pouco e ingerir muitas calorias.
Aproveitei e perguntei pra uma mulher que passava se para ir até Redon era por lá onde eu achava, e realmente era. Apenas seguir a rua do hotel, que já era a petit route.
Entre 8h30 e 9h eu já estava pedalando, devagar, porque era cedo e tinha comido, mas estava indo.
O trajeto até Nantes foi relativamente tranqüilo, ou porque era apenas o início da viagem. Foram mais ou menos uns 40km de subidas e descidas com o trajeto bem sombreado e ventava muito, fazia frio. Até Nantes fui com casaco, porque se não passaria frio, mesmo pedalando.
Como ontem não consegui achar nenhum Kebab aberto em Montaingu, minha missão era achar um em Nantes. Foi extremamente fácil. Segui para o centro da cidade, pedi um mapa no escritório de turismo, nem sei porque pedi, já que não ficaria mais que alguns minutos, mas é bom pra guardar de recordação e aumentar o peso da bagagem. Numa avenida encontrei lado a lado duas casas de Kebab com a mesma promoção: o sanduíche + fritas + bebida por 5€. Perfeito. Eu queria mesmo beber uma Coca-Cola e o preço estava na média. Pedi e me sentei a mesa e comi, enquanto um passarinho veio me fazer companhia. Ficou lá, voando, pousando na mesa, esperando alguma migalha, cantou, bateu asas, mas não tinha nada pra ele. Apesar da minha má hospitalidade, gostei da dele, foi uma boa companhia para o meu almoço em Nantes.
Dei mais uma voltinha na cidade, até uma praça pra poder descansar um pouco mais e seguir viagem até Redon.
Eram muitas subidas e descidas, com vento forte contra, o que fazia com que a viagem não rendesse muito, fazia apenas aumentar o meu esforço em pedalar. Isso é muito angustiante, pedalar, forçar e não sair do lugar. Quando o vento diminuía ou até parava por alguns breves instantes, eu via como fazia a diferença, mas não adiantava, não tinha jeito, o que me restava era pedalar assim mesmo.
Eu não estava mais tão longe agora, apesar de parecer que faltava muito. Cansado, vento contra, querendo chegar logo, tudo isso fazia com que os 10, 5, 3km que faltavam fossem uma eternidade. Continuei pedalando, firme e forte com forças que nem sei de onde tiro pra continuar, só sei que continuo.
Por volta das 18h estava na cidade. Fui até o centro, vi no mapa do ponto de ônibus mesmo onde era o albergue e fui até lá. Uma moça muito simpática me recepcionou, mostrou o quarto, a cozinha, onde guardar a bicicleta, tudo muito bom. Principalmente o fato de que ficarei num quarto sozinho, mesmo tendo duas camas. Porque acho que os quartos lá são assim, pra duas pessoas. Como só estava eu lá, pude deixar minhas coisas mais à vontade, mais jogadas, é muito bom ter o próprio cantinho pra deixar as coisas, sem preocupação de perturbar ou ser perturbado. Poder entrar e sair, dormir tarde (ou cedo) acordar cedo (ou tarde).
Já deixei pago o albergue, porque pretendia sair cedo, deixei os 14,55€. Esse preço é com os lençóis e o selo da FUAJ, mas não tem café da manhã. Por mim tudo bem, é só passar no mercado e comprar alguma coisa, já que no hotel também não teve nada.
Fui no SuperU bem próximo ao albergue, já que a cidade é pequena, tudo é próximo mesmo. Gastei 7,87€ e comprei o jantar: spaghetti, molho pronto e queijo emmental ralado. Comprei também chocolate, pringles e um bolo seco misto com chocolate. Comi boa parte do chocolate enquanto preparava a massa, comi a papa, dessa vez sem vinho. Enquanto eu estava na cozinha veio uma mulher preparar o jantar dela também. Ela começou a conversar comigo, então eu disse que era do Brasil e estava aqui pra andar de bicicleta e fazer um documentário, que estava indo rumo a St. Malo, mas amanhã iria a Rennes. Ela disse que conhecia um caminho bom pra ir de bicicleta, ao longo de um canal, mas não achei muito boa idéia, porque me parecia mais longe e o caminho acho que não era de asfalto, era de terra batida mesmo. Se eu tivesse só com a bike acho que até rolava de ir, mas com essas bagagens todas fica um pouco mais complicado.
Voltei ao meu querido quarto que tinha a pia e o chuveiro, daqueles que tem que segurar com a mão, mas até tinha o apoio na parede, mas é muito estranho isso. O toilette ou WC ficava fora do quarto, mas pelo que percebi só eu estava naquele andar. Vi umas pessoas em outras janelas, no andar debaixo, mas no meu lá, só eu mesmo. Não é um lugar muito visitado, por isso é mais fácil de ter lugar, tanto que sobra, e é mais barato.
Bom, depois de ter pedalado 109,33km durante 6h44:30 e ainda dado umas voltas a pé pela cidade para registrar algumas imagens, era hora de dormir. Lá fui eu pra caminha, que beleza que é descansar.
Nesse tipo de viagem é que a gente dá valor realmente a um banho, uma cama, uma boa noite de sono e descanso. No dia a dia, às vezes tudo isso parece tão banal e automático, tão normal, que nem nos damos conta de que isso é fundamental e muito bom.
O único problema mesmo é que fiquei isolado hoje, sem me comunicar com ninguém, nem por telefone, nem por e-mail. Uma pena não ter internet de graça em todos albergues, mas também, seria uma loucura em alguns. Acho que um WiFi de graça já tava bom, que nem em Lyon, foi perfeito aquilo.

Décimo oitavo dia: rumo a Nantes (09/08)

Acordei em Fontenay-le-Comte lá pelas 7h30, desci, tomei café, acabei de arrumar as coisas e até pegar no tranco já eram 9h e pouco. Até sair realmente o relógio já pendia para 10h. O tempo não pára, e passa voando.
Até Cholet eu não teria muito caminho pela frente mesmo, ia dar certo. Fui seguindo o caminho, pensando estar perdido, mas de repente veio uma placa indicando que eu estava no caminho certo. Ainda bem, porque já tinha rodado uns 10km, e de bike isso é muito. Toda vez que vou pedir informação ouço a mesma coisa, tout droite, acho que os caminhos são bem retos por aqui, é sempre assim, vira a direita e segue sempre reto, ou vira a esquerda, aí vai ter uma rotatória e depois segue reto. E quando vou pedir água, normalmente perguntam de onde estou vindo, pra onde vou, onde moro (país), essas coisas. Aí finalizam dizendo Bonne courage!
Tout droit e bonne courage são as coisas que mais escuto.
Lá fui eu pedalando e pedalando, parei numa cidade, resolvi ligar no albergue pra fazer a reserva, só como garantia, antes de pedalar uns 80 ou 90km e me deparar com o lugar cheio. E foi bom, porque realmente não tinha mais lugar. Tive que mudar os planos. Fui seguindo o caminho rumo a Nantes, o problema é que eu não chegaria lá hoje, quer dizer, chegar até chegaria, mas seria uma longa jornada, perto de 170km. Achei muita coisa pra um dia apenas, sem contar que chegaria tarde, capaz do albergue nem me receber mais. Achei melhor ir até próximo a Nantes, dormir em alguma cidade e amanhã seguir o caminho a St Malo, passar por Nantes e seguir mais um pouco. Tudo diferente, mas é a vida, estamos sempre em mudança.
Meio dia cheguei em Pouzauges, resolvi comprar umas coisas pro almoço e deixar um pouco de reserva também, sempre bom ter algo pra lambiscar. Comprei lingüiça, queijo, maça, banana, uns salgadinhos sabor bacon e uma garrafa de Poweraid de limão, a qual caiu muito bem, bem geladinha. Depois comprei o pão, gastei 8,72€ nisso tudo, uma coisa importante a se ressaltar é que os supermercados de Bordeaux pra frente não fornecem sacolas, o que pra mim não é problema, pois vou consumir tudo na hora mesmo e tenho a bike pra carregar tudo. Sentei numa sombra ao lado da igreja e preparei os sanduíches com manteiga do albergue, afinal de contas eram tabletes pequenos da Président. Descansei um pouco, esperei a digestão apesar começar e segui viagem.
Local do almoço de hoje
O trajeto estava bem tranqüilo até aqui, com paisagens lindas, algumas subidas e descidas, mas bastante sombra. Foi realmente muito agradável.
Hoje eu andei demais porque eu estava indo pra um rumo e tive que mudar, isso me tirou tempo e andei mais que o previsto, se não acho que até dava pra ir direto a Nantes.
Quando cheguei a Les Herbies perdi o rumo da D755 e acabei pegando direção da N137. No início dela e alguns trechos até tinha bastante sombra e mata fechada, muito linda, mas na maior parte não tinha nada, afinal é uma rodovia. Assim como as autoroutes não tem nada além da pista.
Eu já estava cansado, sem saber o que fazer ao certo, só sabia que tinha que ir um pouco mais, mais perto de Nantes. Olhava no relógio, a hora avançava e os quilômetros já passavam dos 100km, a fadiga era grande, mas eu ainda tinha que ir um pouco mais. E quando pensava isso vinha uma subida, mas depois a descida, mas depois vinha outra subida...
E as subidas eram grandes, cada vez mais grandes, pareciam...
Decidi que pararia em Montaigu mesmo. Nada de procurar imóveis abandonados hoje, apesar de eu ter visto uns pela estrada. Mas prefiro gastar um pouco mais e tomar um banho e descansar bem, numa cama. De qualquer forma foi muito boa mesmo a experiência de ter dormido naquele restaurante abandonado.
Quando cheguei na cidade nem acreditava que tinha conseguido. Vi as placas: centro da cidade e estação SNCF, pelo horário sabia que o escritório de turismo estaria fechado, então segui até a estação, mas era tão longe, acho que andei mais uns 2,5km até chegar, e a essa altura do campeonato era uma eternidade, assim como as subidas que tive que enfrentar até chegar.
Pedi para o atendente se ele tinha um mapa da cidade, ele me deu um. Agradeci. Ia saindo quando ele gritou lá de dentro dizendo que era dele e ele havia apenas emprestado. Dei uma olhada, mas fui pro centro da cidade mesmo. Achei um hotel, entrei, perguntei se ele conhecia algum lugar não muito caro. Ele falou que aqui só tinha esse hotel mesmo, o outro estava fechado. O quarto custa 42€, mas ele me arranjou um que custa 30€ e fez por 25€. É que o vaso sanitário é comunitário, mas acho que estou sozinho aqui nesse esquema, e pra mim não é novidade isso. Pagando menos, tá ótimo. O hotel é bem lindo até filmei um pouco. O quarto é muito bom, a ducha é perfeita, tem bastante força. Cama de casal, enorme e macia. Decoração perfeita, antiga, porque o prédio é antigo. A chave e a fechadura é que nem do hotel de Saintes.
O problema agora era comer. Mas o rapaz da recepção me indicou um lugar perto que tinha Kebab.
Fui no banheiro, tomei banho e saí. O problema é que esse lugar do Kebab estava fechado, de férias. E aberto só tinha o restaurante do hotel, caro, outro restaurante, menos caro e uma pizzaria e creperia. Fui nessa. Pedi uma pizza que tinha bacon, mas era um bacon estranho, paguei 8,70€ na pizza, que nem me supriu totalmente, mas amanhã eu como melhor. De qualquer forma foi bom ir num lugar onde tem mais gente, pessoas comuns ou turistas mesmo, agindo normalmente. É legal ver como elas se comportam, o que comem, essas coisas. E o lugar era muito lindo, bem colorido e cheio de detalhes interessantes, mas foi caro pra mim.
Voltei ao hotel e fui usufruir de algumas coisas como a TV. Mas estava passando um reality show, um programa musical ou de jogos, nem sei, no outro coisas de arte, ou quase, e ainda no outro umas coisas sobre uns ricos, esse era legal de ver e sonhar.
Então deixei nesse canal e fiquei escrevendo o diário. Quando de repente ouço a moça anunciar Desperate Housewives. Achei o máximo isso, ainda mais que é dublado! Elas falando francês é muito engraçado. Mas não adianta, sempre que dubla fica um horror. Já são 23h, preciso dormir, deixa o seriado pra outra hora, porque nem sei que capítulo é esse. Mas acho que é antigo, já passou no Brasil, justamente porque lá é legendado apenas, dublar demora mais. Acho que o cara ainda ta preso e os Applewhites acabaram de chegar, pelo que entendi. Nem fiquei vendo direto, cansado...
Total pedalado hoje 133,63km em 7h13:57, foi uma boa jornada e o hotel foi bem confortável pra repor as energias, apesar do gasto financeiro maior.
Casal de ciclistas no jardim

Décimo sétimo dia: ainda em Fontenay-le-Comte (08/08)

Essa era a visão que eu tinha da janela do meu quarto
Hoje foi dia pra descansar um pouco antes de pegar estrada direto até o fim. Vai ser bem puxado e por isso resolvi ficar aqui um dia pra não fazer nada mesmo.
Acordei, fiquei no quarto escrevendo o diário, revendo o trajeto que irei fazer e os albergues que irei ficar. Porque se teve uma coisa boa de La Rochelle foi o fato de eu ter pego o guia com todos os albergues da França da FUAJ, isso foi muito bom, pra adiantar as coisas e ter sempre em mãos os albergues disponíveis, pra poder reservar ou o que for necessário.
Quando deu meio dia e pouco saí a pé mesmo pra dar um descanso pra bike, mudar um pouco o tipo de exercício, depois irei andar muito de bike.
Com o mapinha da cidade em mãos vi o que iria visitar, o que não era muita coisa afinal de contas. Já sabia mais ou menos tudo da cidade, onde ficavam as coisas, que direção pegar, bem tranqüilo.
Antes de mais nada, fui almoçar, afinal de contas tinha o queijo de ontem pra comer ainda, não ia ficar carregando ele por aí nesse calor. Comprei um pão e um croissant só pra ver se ele sempre é uma coisa meio airada, sem conteúdo, diferente dos que tem no Brasil. E realmente era, os do Brasil são bem mais substanciosos, parecem mais pesados. Mas de qualquer forma gastei apenas 1,65€ pra almoçar, isso é pra bom pra economizar um pouco. Como não iria gastar muita energia hoje, não precisava consumir muita energia também.
Nem eram 16h já tinha visto tudo o que queria, passei no mercado pra comprar o jantar. Escolhi dessa vez um daqueles congelados que é só jogar na panela com água ou colocar no microondas e comer, peguei de Salmão, parecia o menos ruim, apesar dos 5,15€, aproveitei e comprei também o tal do chocolate Côte D'Or com amêndoas caramelizadas, esse foi um bom investimento, 200g por 2,45€. O único problema é que eu teria que comer ele hoje, pra não ficar carregando na bike durante o dia e ele virar líquido.
Vista de parte da cidade
Fiquei comendo o chocolate, usei a internet assim que abriu lá, às 18h, por sorte encontrei meu amore online, teclamos um pouco e depois aproveitei pra pesquisar umas coisas dos próximos passos da viagem, como as passagens e esse tipo de coisa. Vi que é mais barato ir até Bruxellas e depois pra Amsterdã, do que direto até a Holanda. Mas tudo vai depender do tempo.
Depois de ter usado umas 2h de internet de graça era hora de comer. Pedi novamente a panela, prato e talheres, mas dessa vez já tinha uns caras na cozinha. Eles já tinham feito a comida e só tinha mais uma pizza no forno, então pude começar a preparar o meu jantar sem problemas. Esquentei a água e depois deixei durante uns 10 minutos, como mandava a receita, os saquinhos. Um tinha o arroz com legumes, outro o salmão e outro o molho. Era tudo pequeno e tinha pouco, ainda bem que comi o chocolate e não gastei muita energia, então isso daria por hoje.
Comi juntamente com o resto do vinho de ontem e fui arrumar as coisas pra poder partir amanhã logo após o café da manhã. Não sei porque estava cansado, só arrumei porque era preciso e depois fui dar um rolé na cidade só pra ver como era no cair da noite. Valeu a pena, na igreja próxima, tinha apresentação de música gratuita e a lua estava linda, muito cheia, amarela.
Depois voltei e fui dormir, nem escrevi mais nada, deu preguiça.
Tirando o fato que teclei com o meu amore, no mais não fiz nada de muito útil.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Décimo sexto dia: Fontenay-le-Comte (07/08)

Tomei café olhando alguns mastros de veleiros ancorados ali perto, era tudo muito lindo ao amanhecer, enquanto as pessoas ainda estavam dormindo. Gostei do barco, gigante, chamado Amigo, acho que é de um holandês. É nessas horas que eu gostaria de um Amigo.
Trocadilho feito, é hora de pegar estrada. Mas as indicações são para carros, e carros pegam a autoroute. Voltei ao escritório de turismo e pedi um mapa dos caminhos para se fazer de bicicleta. Foi um ajuda e tanto. Encontrei um outro ciclo turista, numa Giant modelo estrada, e perguntei pra onde ele ia e tal, ele disse que estava procurando o albergue, então dei mais ou menos as informações para ele, mas para variar, teve que ser em inglês, porque ele não falava quase nada em francês. Achei que eu fosse praticar mais um pouco, não deu certo.
E eu segui o mapa, mais ou menos, porque parecia tão simples olhando, e quando chega em certas encruzilhadas tudo fica diferente e eu me perco. Mas vou me guiando pelo sol enquanto não dá meio dia, porque aí fica complicado.
Em certo momento vi que eu iria para a autoroute, parei, fiquei olhando o mapa e de repente um senhor de bicicleta veio me ajudar. Eu disse que estava indo para Marans, que é caminho para Fontenay-le-Comte, então ele disse para eu segui-lo alguns metros. Em certo momento ele parou e deu as instruções para eu continuar. Acho que ele morava ali perto mesmo, porque sabia bem o caminho, as curvas, subidas e descidas. Fui até certo ponto pelas instruções dele e pelo mapinha também, apesar de que o mapa ser meio ruim pra mim que iria tão longe, ele não era tão abrangente.
Nessas estradas secundárias o problema é a falta de sinalização, ou melhor, a pouca sinalização. Porque para quem está de carro ou sabe bem pra onde vai, é bem tranqüilo, mas para quem está de bicicleta, uma placa a cada 3km é muita distância. Mas a estradinha era boa, com bastante sombra e como ainda era relativamente cedo o clima tava bom pra pedalar. E o vento sempre acompanhando também. Fiz um ritmo bom de pedalada até chegar a Marans. Lá eu deveria pegar um trecho da N137 e depois seguir na D938 até Fontenay, mas não sei se foi o moinho de vento que parei pra tirar uma foto ou o Porsche que eu vi, mas um dos dois me distraiu e eu passe reto da entrada. Sei que pedalei uns 10km por uma estradinha sem sombra, com vento e só plantação e pasto dos dois lados. Aquele cheirinho do campo, uma beleza, principalmente do pasto. Já era meio dia e pouco, minha água tava pra acabar, eu não sabia se estava indo certo, pelo que vi no mapa eu estava indo no sentido contrário e teria que dar uma enorme volta pra chegar ao meu destino. Parei numa dessas fazendas que oferecem hospedagem, as chamadas Chambres D'Hôtes, pedi água e informação. A dona foi muito atenciosa, encheu minha garrafa fiel e trouxe um mapa pra eu ver. Pedi para anotar as cidades que eu deveria seguir, ela escreveu tudo certinho e até ofereceu o mapa pra eu levar (mais um pra carregar, por isso nem aceitei) e perguntou se eu precisava de mais alguma coisa. Disse que estava bom já, que ajudou muito e segui viagem, mais uns 25km. Vou andar mais, mas pelo menos ela me disse que dali pra frente a estrada teria mais sombras, o que torna bem mais agradável pra quem vai de bicicleta.
Cheguei em Fontenay-le-Compte mais ou menos 14h30, depois de 73,63km em 4h16 de pedalada, fui direto pro escritório de turismo da cidade, peguei o mapa e fui pro albergue.
Chegando lá vi que não era apenas um albergue, mesmo porque essa cidade não é lá muito turística para jovens, era também um lugar de reabilitação ou alguma coisa do gênero para jovens. Entrei pra dar uma olhada geral no local, vi uma máquina de refrigerante, vi o preço, 0,80€ a Coca-Light, não pensei duas vezes e peguei uma. Desceu que foi uma beleza, naquele calor, depois de pedalar tanto, foi muito bom, muito refrescante. Fui ver se tinha lugar pra mim. A moça que me atendeu foi muito atenciosa, me explicou tudo, me mostrou onde era o quarto, onde era o café-da-manhã, como fazia pra abrir a porta depois das 22h com o cartão, porque tudo fica trancado. Fiz um tour pelo lugar com ela me explicando tudo detalhadamente, foi muito legal. Sem contar que o meu quarto aqui é de rei. É uma suite, uma caminha só pra mim, com banheiro completo só pra mim, tudo isso por 16,25€ com café-da-manhã, porque se não são 3€ a menos. Mas eu acho difícil comer tanto e tão variado por 3 ou menos. Um pãozinho com café já dá isso.
Fiquei um pouco no quarto, pra arrumar as coisas e descansar. Depois saí a fim de conhecer um pouco da cidade, mas eu estava realmente muito cansado, precisava parar um pouco, mesmo assim fui até os correios porque achei que fechasse às 17h, mas ainda bem que fecha só às 17h30. Comprei o cartão telefônico por 7,5€ e tenho 53 minutos de ligação para o Brasil. Pude ligar pra casa e falar durante um bom tempo, depois liguei para o meu amore, mas ela não estava em casa no momento, tudo por causa do carro, agora ela não pára mais. Passei no mercado MonoPrix, comprei macarrão, molho pronto Napolitano, queijo Emmental, linguíça, uma garrafa de vinho 75cl de Bordeaux, Château La Grange de 2005 e dessa vez sal. Tudo isso por 8,43€, acho que vale a pena porque não iria comer tanto e tão bem, do jeito que eu gosto e ainda beber vinho por esse preço.
Ainda bem que parei o meu tour e comprei as coisas, porque o mercado também não ficaria mais muito tempo aberto. Cidades pequenas, tem que tomar cuidado. E chegando na cozinha do albergue, me deparo com a falta de tudo. Fui na recepção, não tinha ninguém, fui direto na cozinha, falei com a mulher e fui pedindo as coisas, ela me trazia e eu dizia se era ou não, mas o resto eu lembrei os nomes certinhos. Com tudo em mãos voltei pra cozinha, mas aí o fogão não ligava. Dessa vez o cara estava na recepção e foi lá ligar a chave central que estava desligada, acho que pra evitar dos loucos usarem e se machucarem aqui, porque tem muita gente com cara de louco.
Bom, finalmente pude começar a cozinhar. Demorou até esquentar a água, mas não foi problema, porque eu já fui tomando o vinho e cortando as lingüiças e piquei o queijo também, algumas fatias, outras comi, outras guardei pra amanhã.
Cozinhei o macarrão e coloquei no prato. Na mesma panela, a única que eu tinha, fritei as lingüiças direto, na raça, no próprio óleo delas, porque eu não tinha outro mesmo, apesar de ter visto plantação de girassol o trajeto todo. Deixei fritar bem, então joguei o molho pronto e sal, claro. Dessa vez tinha que ter sal. Joguei o queijo Emmental picado e misturei bem. Deixei só o queijo derreter e virar aquela massa toda e joguei a massa do macarrão de volta, junto ao molho power special. Misturei bem, tudo esquentou e derreteu como deveria. Fiz tanta comida que dividi em duas prestações, enchi o prato e comi, depois enchi novamente e comi. O vinho de Bordeaux estava muito bom. Só sei que devo ter reposto todas energias e mais um pouco do que gastei hoje pedalando, foi muito bom.
Depois dessa orgia gastronômica fui ligar para o meu amore, porque aqui eram quase 21h e lá quase 16h, a sogrinha disse que ela chegaria umas 15h30. Deu certo, ela mesmo que atendeu, acho que já esperava a ligação. Falamos durante uns 15 minutos, e salvem o cartão dos correios (La Poste). Demos os parabéns, porque hoje, dia 7, faz um ano e três meses de namoro oficial. Amei ter falado com o meu amore sem pressa, falar de tudo, da saudade, das novidades, que estaremos juntos em breve, que seria maravilhoso podermos viajar juntos pra Europa, almoçar em algum parque, tudo isso é muito bom.
Como eu estava realmente cansado e pensando em ficar um dia inteiro aqui só pra poder usufruir do meu quarto particular, do sossego da cidade e da internet de graça que descobri ter aqui, além do preço bom da estadia, voltei ao albergue pra dormir, estava realmente muito cansado. Ainda mais que depois daqui, não poderei mais parar em lugar algum, será cada dia numa cidade diferente e vamos que vamos.

Décimo quinto dia: Rochefort e La Rochelle (06/08)


E aqui estamos na metade da viagem. Décimo quinto dia, muita saudade do que ficou e muita vontade de conhecer novas coisas ainda.
Acordei no hotel que mais parecia uma casa onde a dona recebia as pessoas pra se acomodar, porque só tinha casais de velhinhos e tudo era muito a cara da Mme. Bibard. Um casarão antigo com um terreno de uns 30 metros de frente no máximo, mas de profundidade devia ter uns 100 metros. No quintal um belo jardim, com muitas flores e uma horta que deve ser o passatempo dela quando não tem muitos hóspedes. Tinha uns brinquedos de criança, para os filhos dela ou de quem vier, não sei. Tudo meio jogado, meio bagunçado, mas ao mesmo tempo tudo limpinho. Tinha pistola d'água jogada na grama, cesta de basquete com as cores da bandeira da França, que são as mesmas dos EUA, então pode ser americano que parece francês. Assim como eu, que sempre sou confundido com alemão, inglês, ou qualquer outra nacionalidade européia, menos brasileira. Dependendo a região da França que estou as pessoas perguntam de que país eu sou, por exemplo, próximo a Strasbourg, perguntavam se eu era alemão. Em Bordeaux se eu era inglês. Ainda mais quando eu tentava falar alguma coisa e não saía direito, muitos já perguntavam se eu falava inglês, pra resolver logo as coisas. Mas o problema é que inglês eu sei menos ainda. No final das contas sempre consigo me comunicar. Com muita calma e paciência a gente chega lá.
E o hotel/casa da Mme. Bibard era realmente tudo muito caseiro. O café-da-manhã foi uma graça e uns dos melhores e mais completos que já tomei aqui na França, porque normalmente tem o suco, café, leite, chocolate e pra comer, pão, manteiga, algum doce e algum tipo de cereal também, e nada mais. Aqui teve croissant, finalmente comi croissant num lugar que dormi. Não era lá grande coisa, mas era o croissant. Só o café quando já é pronto, fica ruim, mas tomei assim mesmo por causa da cafeína. O melhor é onde tem a máquina que faz na hora, saí uma beleza e ainda pode-se escolher se quer café, capuccino, chocolate quente...
Como não tinha mais o que fazer na cidade e o tempo realmente voa, isso eu comprovo a cada dia que passa, paguei as minhas despesa. A maioria dos lugares paga quando chega. Depois desse café reforçado da Mme. Bibard desci as malas e até arrumar tudo e começar a pedalar já eram 9h50, demorei 2h09 pedalando durante 43,35km. Esse trecho foi bem tranqüilo, sem subidas fortes e vento contra. Tinha um pouco só, mas nada que prejudicasse muito o desempenho e a constância da viagem. Passei por cidades muito legais, várias, porque a cada 3 ou 4 km tinha uma, que era basicamente a mesma coisa: correio, padaria, bar, doceria, prefeitura, igreja e praça, variando uma ou outra coisa.
Em Rochefort não foi difícil achar a rua do albergue, o problema é que ele só abriria às 15h. Dei uma volta pela cidade, filmei alguma coisa, como a praça central, Hotel de Ville, a fábrica de cordas que é enorme, deveria ser o maior estaleiro da França, mas acho que não deu muito certo nisso. Haviam vários turistas, mas como é domingo, tudo fechado, somente os restaurantes e bares abertos.
Encontrei uma pizzaria aberta e fui comer lá mesmo, não era tão cara. Pedi uma pizza (6,00€) e uma Coca-Cola (1,70 €, meio cara, mas eu estava precisando), foi um almoço meio caro, mas foi bem fortificante.
Já havia almoçado, visto os principais pontos da cidade e ainda eram 14h. Decidi adiantar a viagem e seguir até La Rochelle. Daqui pra frente o caminho foi um pouco mais difícil, creio eu que por vários motivos, como o cansaço, calor e por estar meio perdido. Por vários quilômetros andei numa rodovia que eu acho que não poderia andar, mas não encontrava outro caminho pra fazer. Até que vi uma placa indicativa de um caminho pra se fazer de bicicleta até La Rochelle, o problema é que daria uns 10km a mais. Mas pelo menos era específico para ciclistas, tinha mais sombras e mais possibilidade de pedir água, sem contar que não terei carros e caminhões passando a 110km/h do meu lado.
Realmente tem coisas que só o cicloturismo pode proporcionar. Nesse caminho alternativo para bicicletas vi que eu daria uma grande volta, a princípio não entendi bem. Encontrei outros ciclistas passando pelo caminho, mas no sentido contrário, vi que eu estava indo certo. De repente, mais uma vez, vejo uma placa de rua interditada. A França está em reforma, toda cidade tem um desvio. Mas dessa vez não era por questão de obras, mas de festa. Era a cidade de Châtelaillon-Plage. Eu já havia pego muito sol na cabeça, estava preocupado em chegar a tempo em La Rochelle, mesmo tendo reservado o albergue porque a cidade é mais badalada, nem tinha me dado conta de que eu estava tão próximo do oceano Atlântico. Quando entrei nessa cidade, nessa rua interditada, vi uma grande feira, uma festa na cidade. Desci da bicicleta pra poder passar no meio do povo que lotava as ruas estreitas da cidade, tirei a câmera e filmei um pouco de uma apresentação que estava acontecendo num palco. Olho para o lado e vejo muita água, aí me dou conta de que estou vendo o oceano. Continuo caminhando e de repente vejo a praia, afinal de contas, está no nome da cidade. Estava lotada a pequena faixa de areia e haviam muitos barcos mais adiante. Filmei um pouco da praia, tirei uma foto da bike com o oceano ao fundo. Continuei andando e ouço um ronco, era um Porsche, antigo, mas um Porsche. Ao lado, uma Ferrari, anos 60 ou 70, acho que mais pra 70, linda, era atração aos olhos de muitos que passavam. Porque carros assim, serão sempre desejados, mesmo que tenham 40 anos.
Mas eu tinha que chegar em La Rochelle. Continuei seguindo as placas do trajeto para ciclistas, passei por uma avenida muito arborizada e cheia de carros, tanto estacionados quanto andando. Eu estava com a câmera fotográfica na mão quando um carro invadiu a faixa de ciclista, fui subir na calçada, mas a roda dianteira não foi, por causa do peso da bolsa de guidão e a bike caiu. Ainda bem que só sujou um pouco. Levando-se em conta o tanto que já andei, isso não foi nada, ainda bem.
De repente perdi as indicações do caminho de bike, quando vi eu estava na tal de N137 que eu já havia andado, mas dessa vez ela estava maior, mais movimentada e tinha também a inscrição E602. Acho que não era muito apropriada para ciclistas, mas eu não encontrava outro caminho. Porque eles não fazem nenhum tipo de saída (ou entrada) justamente para os ciclistas que estiverem no trajeto próprio não entrem na rodovia, mas o problema é que eu queria sair e não teve jeito. Fui seguindo e só alguns motoristas que passavam gritavam alguma coisa ou buzinavam, não sei se era pra cumprimentar ou pra dizer que eu não poderia estar ali mesmo. Agora eu já estava próximo, fui seguindo as indicações, fui até o centro da cidade, mas foi um erro, porque domingo nada funciona. Tive que ir até a estação da cidade pra tentar pegar um mapa, mas só havia o mapa grande colocado na parede. Procurei onde era a rua do albergue e ainda bem que era próximo. Vi mais ou menos a direção e as avenidas que eu deveria pegar até chegar e fui. Mas o problema é que quando a gente chega lá no local, tudo muda. Perguntei pra um cara onde ficava o Minimes, era próximo mesmo. Mas como eu estava no meio de uma feira, fiquei mais um pouco ali. Era no porto velho, onde tem as torres. Encontrei uma brasileira perdida vendendo colares e esse tipo de coisa feita de coco.
Segui até o albergue, umas pessoas estranhas lá, mas tudo bem, não iria ficar muito. Minha reserva ainda estava certa, paguei os 16,90 e fui levar as coisas para o quarto, onde havia mais 5 pessoas. No quarto tem uns armários e a pia, o resto fica no banheiro comunitário.
Voltei ao agito, peguei mais umas imagens, pelo que vi o que rola é ali perto desse porto mesmo, filmei o Aquarium, um museu que fica num navio e resolvi comprar umas coisas pra comer. Foi bem na hora, porque em muitos lugares já não havia mais nada ou estava fechando. Muita gente lá, muita gente mesmo. Praia bomba no verão em qualquer lugar do mundo. Entrei num mercadinho, peguei um sanduíche desses prontos de Poulet Rôti Crudités (550kcal), um saquinho de amendoim (634kcal) e uns biscoitos com cobertura de chocolate, muito bom (550kcal), tudo isso por 6€. Eu precisava de energia depois de ter pedalado 116,82km em 7h06, e isso era o que mais tinha energia pelo menor preço no momento, tinha McDonald's também, mas não posso comer tanto assim, ainda mais na França, isso eu como quando voltar ao Brasil, sem contar que aqui eu não achei muito bom. Talvez por ter coisas muito melhores pra experimentar. Como esse mercadinho não fornecia sacolas plásticas, me sentei logo ao lado dele e comi, ali mesmo. Cheguei na cidade um pouco antes das 18h, demorei uns minutos até encontrar o albergue e me estabelecer lá, dei uma volta e quando vi já eram 20h, hora de fechar tudo. Nem havia acabado de comer e o mercadinho fechou. Quase que fico sem comer, ou teria que gastar muito mais pra comer outra coisa. Assim meus gastos foram dentro do previsto, 30,70€.

Décimo quarto dia: Cognac e Saintes (05/08)


As minhas instalações não foram das melhores, fiquei sem banho, sem trocar de roupa, mas não tinha ninguém por perto pra reclamar, então levantei assim que começou a clarear lá pelas 6h da manhã e continuei a viagem. Estava realmente muito frio. Eu pedalava mas em vez de aquecer, o vento fazia com que eu ficasse mais gelado. Quando o vento diminuiu um pouco, tinha mais árvores pelo caminho e mais subidas também, aí começou a esquentar um pouco. Mas chegava a sair fumaça da boca de frio, às vezes eu tremia, em descidas, por exemplo.
Às 8h50 cheguei em Pons, parei um pouco pra descansar e comer alguma coisa com sustância. Eu estava indo em direção ao centro da cidade, mas além de estar tudo vazio, tinha uma grande subida, desisti e voltei a uma boulangerie que eu tinha visto. Pedi um sandwish de saucisson sèc e um café pequeno, me sentei ao sol, porque essa hora eu precisava me esquentar, e podia ficar olhando a bicicleta, apesar de ali não representar perigo algum. Comi o super sanduba, paguei os 4,10 euros e segui viagem.
Mas o lanche era muito pesado mesmo, tive que parar logo mais à frente pra fazer a digestão. Eu ia parar numa concessionária Peugeot, mas quando cheguei perto apareceram uns cães, pedalei mais um pouco e parei numa entradinha que tinha mesmo. Descansei e esperei uns minutos pra digestão e voltei a pedalar, aí foi tudo bem. Eu tava indo num ritmo bom, porque erra fresco e plaino. Cheguei em Cognac umas 11h. Fui direto ao escritório de turismo pedir o mapa e informações sobre albergues.
Antes de começar o tour realmente pela cidade, parei no mercado e comprei um sanduíche, um litro de suco de laranja (só tinha de litro) e um pedaço de torta de chocolate pra servir de almoço, porque eu havia pedalado muito nesses dois dias e depois ainda tinha o trecho até Saintes.
Vi no mapa onde era a praça, e para o meu espanto era muito lindo. O jardim público fica em frente ao Hotel de Ville, que também é uma construção e tanto. Sentei num banco, pra descansar e beber o suco. Comecei a beber pra repor os líquidos e energias, já comi o sanduíche também e já que tinha almoçado, comi a torta como sobremesa. Eu estava realmente cheio, acho que só o litro de suco já bastaria pra encher. Fiquei mais uns 20 minutos no banco da praça pra poder me levantar. Peguei a câmera e comecei a filmar o parque, a cidade, as ruas, as empresas de Cognac. Até pensei em fazer uma visita a uma ou duas delas, mas eu acho que não daria tempo suficiente. E o fato de ter ido até lá pra mim já vale a pena. Mas nesse momento eu precisava mesmo era de um belo banho.
Vista da fábrica de cognac Hennesey
Andei pela cidade toda, que não é muito grande, mas talvez por ser sábado estava cheia de turistas e pessoas cheias da grana, porque eram muitos carrões e motos, vi até umas Harleys. O mais engraçado é que pela proximidade com a Inglaterra, vi muitos carros com o volante na direita, mas andando no nosso sentido isso fica sem sentido, muito bizarro.
Bom, hora de continuar a viagem, agora não faltava mais muito, uns 26km apenas. O problema era o sol que estava quente a essa hora, bem diferente da manhã e as muitas subidas com trânsito intenso na rodovia. Foi um dos trajetos mais difíceis pra se fazer por esses motivos, mas não tive medo porque todos os motoristas dão a distância correta ou diminuem e passam quando tem mais segurança, sempre sem reclamar e com muito cuidado.
Tive que parar mais vezes pelo cansaço e calor. Mas sempre ia achando umas torneiras pelo caminho quando precisava. Quando fui parar numa sombra boa, um cachorro ficou latindo, veio a dona e disse que eu não poderia ficar ali. Que saco, era tão bom o lugar, uma sombra, gramado, tinha até tirado o tênis. Pedalei mais um pouco, parei, bebi água e fui assim até chegar em Saintes.
Como eu já tinha o mapa da cidade, fui direto para o albergue, foi bem tranqüilo de achar, porque a cidade tem basicamente uma avenida principal, e o albergue era bem próximo a ela. O problema foi que não tinha mais lugar no albergue, estava lotado. Até liguei de Cognac pra reservar, mas estava fechado o atendimento. O bom foi que ele me indicou o hotel mais barato da cidade, Le Parisien, próximo a estação de trem, e não longe dessa avenida e centro também, é tudo bem perto. O hotel até é bom, pelos 23 euros mais 3,5 do café da manhã. E ainda tem a opção de um café da manhã mais completo por 5.
Levei minha coisas para o quarto, tomei banho finalmente e vi que ganhei uma alergia no lombo direito. Não sei se do calor ou de alguma coisa lá do restaurante abandonado. Mas acho que logo passa. Isso que dá ficar direto com a mesma roupa dois dias.
Resolvi sair a pé pela cidade, tudo pertinho, e assim poderia ir mais tranquilamente. Coloquei bermuda, camiseta e chinelo e saí. Com o mapinha na mãos passei nos pontos que quis, filmei e depois procurei algum lugar pra comer. Nessa avenida principal as únicas coisas abertas lá pelas 19h eram uns poucos restaurantes, assim como em todo o resto da cidade. Quando vi escrito Kebab, não pensei duas vezes e fui pedir um desses. Aqui é um pouco mais caro, paguei 4,8 pelo American Kebab com fritas, lá em Bordeaux paguei 3,5 com fritas. Mas de qualquer forma eu precisava comer e hoje é sábado e não ia ter mais nada aberto além de restaurantes e pizzarias. Até pensei em comer uma pizza, mas iria gastar uns 10 euros pelo menos. Do jeito que a coisa tá caminhando agora acho que o dinheiro vai dar, o que tenho mais o que posso sacar no cartão. Qualquer coisa, se faltar um pouco no final, uso o de crédito mesmo. Já que estou falido, que seja falido de vez.
Hotel em Saintes
Acho que conheci a cidade em 2h andando a pé, isso é muito bom. Depois que eu jantei, a cidade ficou morta. Mas ainda estava claro.
Resolvi avisar as pessoas do Brasil que estou bem, já que não dei mais notícias e internet aqui deve ser lenda. Como eu ainda tenho o cartão telefônico tentei ligar pra reservar o albergue em Rochefort, mas estava fechado. Temo que aconteça o mesmo que aqui, mas acho que não. Porque pelo que vi, o albergue aqui custa uns 14 euros, tá no nível do de Nancy. E se eu conseguir pegar o albergue por esse preço em Rochefort ou La Rochelle, dependendo da cidade, pode ser que eu fique mais lá pra poder descansar um pouco e pensar na vida, se não vou seguindo viagem conforme eu planejei.
Mas enfim, liguei pra casa também, a Leilane atendeu, falei que está tudo bem, tudo certo e assim que der mando um e-mail explicando melhor o roteiro que irei fazer que nem eu sabia direito. E acho que pode ser que mude.
Depois liguei na casa do meu amore, ninguém atendeu. Sábado, dia normal pra sair. Pensei em ligar mais tarde, mas não estava afim de sair depois novamente pra isso. Liguei no celular dela mesmo, porque também não sabia se ela ia demorar muito ou não pra voltar pra casa. E ligar amanhã acho que nem rolaria, porque pretendo ligar ou mandar e-mail na segunda, dia 7, porque é data especial, 1 ano e 3 meses de namoro oficial. Deixei planejado de entregar um buquê de rosas da Galeria das Flores com um bilhete contendo o endereço de uma página na internet. E nessa página tem alguns dizeres, umas fotos e um contador regressivo para a minha volta. Achei bem interessante isso, espero que ela goste também.
Hoje fiz ao todo 100km durante 6h36 de pedalada. Amanhã se eu parar em Rochefort mesmo, será bem menor o trajeto a percorrer, agora se eu tiver que ir mais adiante ou até La Rochelle, a coisa fica puxada mesmo. Bom, isso só vou saber amanhã, hoje sei que estou com saudades do meu amore. Foi muito bom ter ligado pra ela, gostaria de poder me tele transportar da mesma forma que a minha voz chega até ela, dar um abraço, um beijo, ficar um tempo lá, e depois continuar minha viagem. Mesmo sem poder fazer isso, encontro forças pra continuar nas lembranças de tudo que já passamos.
Outra coisa de bom é que passei pela região mais famosa do mundo na produção de vinho e derivados, como o cognac e logo estarei na praia. E espero que numa cama boa. A cama desse hotel aqui é muito boa mesmo.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Décimo terceiro dia: rumo a Cognac (04/08)


Sexta-feira e eu pegando estrada. Mas demorei um pouco porque tomei café da manhã e depois coloquei as coisas na bike, saí do albergue já eram 10h. Depois ainda dei mais uma volta pela cidade e até almocei. Mais um Kebab, esse tava bom também, a moça colocou o molho de pimenta, tava bem forte e cheio de batata frita nele. Muito engraçado isso, mas é um sistema bem econômico.
Esperei um pouco o sanduíche descer e comecei a pedalada. Como a França realmente está em reforma, tinha um trecho que tinha um desvio, perguntei para um homem que estava passando se era por lá mesmo que deveria seguir, ele disse que sim, que eu deveria atravessar a ponte e continuar ao longo da autoroute, pois tinha uma pista para bicicletas. Pois bem, lá fui eu. Atravessei a enorme ponte com mais de 1km de subida, mas uma subida suave, nada como a que tive que enfrentar em Lyon. Para minha surpresa, do outro lado uma placa de desvio, tudo bem, desviei, mas quando chego do outro lado um portão, fechado e trancado. E agora? Voltei a ponte na contra-mão mesmo, para minha sorte vinha um senhor de bicicleta, eu ia perguntar como que fazia, mas ele passou por mim e disse: d'autre côte, ou seja, que era pra eu voltar pelo outro lado. E foi embora. Passaram uns caras até com scooter, que nem é permitido. Mas ninguém parou. E ninguém voltava, isso era estranho. Até que veio uma moça, ela parou ao meu apelo. Perguntei se era por ali mesmo, ela disse que sim, mas eu disse que estava trancado, acho que ela não entendeu o que eu quis dizer, ela deve ter pensado que ela sobre o desvio e tal. Bom, sei que ela foi e eu fui atrás, porque por algum lugar esse pessoal passou que ninguém voltou.
Subi toda a ponte novamente no sol do pós meio dia, ainda bem que tinha comido bem. Vi que ela deu de cara no portão trancado também, voltou e passou pelo lado de uma tela que tinha na pista normal. Pra ela passar foi fácil, só a bike e ela, pra mim, um pouco mais difícil, mas eu não ia voltar tudo, passei também. Pedalei por um gramado até chegar no fundo de uma oficina, aí dava acesso a uma rua. Essa rua dava conexão com a rodovia que eu deveria pegar. Esse episódio me fez perder muito tempo, paciência, força e água, mas tudo bem, agora estava no caminho e tudo estava do jeito que deveria estar.
Fui seguindo as cidades, pelo mapa e pela intuição. Deu certo. O único problema era até onde ir. Pelo meus cálculos eu poderia chegar em Mirambeau, que fica a menos de 100km de Bordeaux, o problema é que já havia saído tarde e fiquei dando voltas até realmente sair da cidade.
Depois desse stress todo com o caso da ponte e a incerteza de onde dormir, descansei em St. André-de-Cubzac, na praça du Général de Gaulle, bem movimentada essa cidadezinha, vi passar uns carrões. Inclusive isso é até normal, em qualquer cidadezinha, em qualquer beco tem uma Mercedes, Classe E.

Já havia pedalado 62km e estava em Bourg, dei mais uma paradinha pra descansar. Comi um pouco de biscoitos que eu estava carregando, pra repor as energias e segui rumo a Blaye.
Esse trajeto passa bem próximo ao rio Gironde, que dá nome a região, muitas vezes era possível ver o grande rio, mas a maior parte do tempo ele ficava escondido atrás nas árvores. Num desses locais que era possível ver, parei pra tirar uma foto e descansar um pouco os ombros, porque mais do que pernas e a bunda, o que mais é problemático pra mim é a região logo abaixo da nuca, que fica muito tencionada e na mesma posição durante muito tempo o que ocasiona essa dor. Mas isso acontece normalmente depois dos 30km rodados e passa depois dos 50km. Primeiro ele tenciona, depois anestesia.
Mas eu fui pedalando e já tinha em mente uma coisa, ficar em qualquer lugar, menos em hotel porque é caro. Até cheguei a parar e perguntar em alguns sobre preço, mas era tudo acima de 45 euros. Para mim isso é muito. Se eu fosse ficar uma semana apenas, tudo bem, mas além do que já fiquei, tenho mais alguns dias pela frente.
Fui pedalando pra ver o que dava. Afinal de contas essa história de escurecer tarde bem que poderia ser usada ao meu favor.
Primeiro pensei em parar no meio de uma plantação de uvas e colocar o lençol e dormir ali mesmo. Mas achei meio ruim pelo fato de ser aberto e ter umas formigas por perto. Então andei mais um pouco e achei um restaurante abandonado que estava a venda. Pelo que vi fazia um tempinho que ninguém aparecia por lá, pra mim foi o local perfeito pra passar a noite. Achei algumas coisas pra improvisar uma cama, escovei os dentes e me deitei ali mesmo. O problema é que conforme a noite ia adentrando, chegavam pernilongos, frio e o desejo de estar numa cama. Mas era só essa noite e não tinha mais o que fazer, além do que, eu sempre quis fazer isso pra ver como que é. Acho que pra mim foi uma boa experiência em todos os sentidos. Pra ver como é dormir em qualquer lugar, com incerteza, sem banho, sem conforto algum, sem limpeza, sem nada...
Porque se eu tivesse uma barraca ou mesmo um saco de dormir, acho que teria sido um pouco melhor a minha estadia. Mas de qualquer forma consegui economizar uns trocados e quando precisar sei que poderei fazer isso, mas desde que na próxima noite tenha um albergue ou hotel pra tomar banho, porque fazer isso dois ou até mais noites seguidas eu acredito que não deva ser uma coisa muito agradável. Ainda mais que continuei com a mesma roupa, a mesma meia, tênis, mesmo tudo. Será coincidência de sexta-feira e o décimo terceiro dia da viagem?

Isso, depois de ter pedalado praticamente o dia todo, durante 6h38 (de pedal) e ter feito 105km, mas já eram 20h30, e eu precisava parar em algum lugar antes de escurecer, porque se não seria pior ainda. Sem muita comida e sem muita visibilidade capaz de eu me perder ou cair em algum lugar e ficar por lá mesmo.

Décimo segundo dia: rumo a Bordeaux (de trem, dia 03/08)


O trem mais cedo que tinha era às 6h50, mas tudo bem, coragem que dá certo, pelo menos vou chegar cedo lá e poderei aproveitar o resto do dia pra conhecer um pouco da cidade.
Saí voando do albergue, ainda estava meio escuro e frio, coloquei as luzes na bicicleta, as bagagens e fui. Era meio longe, mas cheguei a tempo. Desmontei a bike toda, procurei onde era o embarque e quando cheguei lá esperei, esperei, até que anunciaram que o trem estava atrasado. Como assim? O primeiro TGV que pego na França e ele está atrasado?!?! É de ficar na história mesmo. Mas tudo bem, desde que eu não perca minha conexão, tá tudo certo. O problema foi ter levantado às 5h30, feito tudo correndo, nem café da manhã tomei direito e o trem atrasa, coisas da vida.
Embarquei, com vagão e cadeira marcados, me sentei, escrevi um pouco no Pocket algumas coisas que estavam atrasadas e no mais só admirei a paisagem que passava voando. Inclusive o trem é bem confortável, não se tem tantos solavancos como os trens comuns, acho que por ele ser mais baixo e deve ter também um sistema de suspensão mais bem calibrada.
13h15, eu na estação de Bordeaux sem saber nada, fui direto no escritório de turismo e pedi informações sobre albergue, a moça me deu o mapa que tinha um bem perto da estação e, consequentemente, do centro da cidade. Fui até lá, tinha vaga, era 21,40 euros. E ainda poderia cozinhar finalmente o meu querido macarrão.
Com o mapinha em mãos fui seguindo os principais pontos da cidade, que não são lá muitos. E o mais legal, como normalmente é, fica na beira do rio. Peguei umas imagens e corri pro albergue, pra poder fazer o meu macarrão antes que a cozinha se tornasse uma lotação de gente.
Antes eu comprei um vinho de Bordeaux, claro. Depois fiz o macarrão, achei óleo para usar, só faltou o sal mesmo, mas tudo bem, o importante é alimentar. Foi uma bela pratada de macarrão. Gostei desse esquema de cozinhar no albergue, saí em conta, faz do seu jeito e é comida quente. Pretendo fazer mais disso nas próximas vezes, mas só tenho que cuidar com o horário de pico.
Depois dei mais umas voltas pela cidade, já que fica claro até às 22h mesmo.
No total fiz 38,22km em 3h de pedal pela cidade.
Voltei para o albergue, tracei um roteiro para chegar até Cognac e Saintes, ensaquei a viola e fui dormir.

domingo, setembro 03, 2006

Décimo primeiro dia (02/08/2006): Lyon


Já se foi um terço da viagem, mas pelo menos consegui falar com o meu amore pela internet. Estou realmente com muita saudade dela, só que ainda terei muito caminho pela frente, e isso que ao mesmo tempo é bom, é triste, mas prefiro pensar mais na parte boa, que é a viagem e a possibilidade de conhecer coisas novas. Porque se eu ficar pensando somente na distância, saudade e tudo que deixei pra realizar essa viagem, não irei aproveitar nada, e isso eu acho que é pior ainda.
Bom, acordei, levantei, tracei o roteiro de visita em Lyon, anotei num papel, peguei o mapa de ônibus e metrô e saí por aí.

Comecei pelo que era mais perto, mas não mais fácil. Depois do café da manhã, bem generoso e bom, encarei uma subida de 2km. Não qualquer subida, mas uma subida como a que faço pra chegar ao albergue, mas essa tem apenas 400m. Ou seja, ainda bem que o café da manhã foi bom, porque suei bastante pra chegar até a Basílica. Se bem que chegando lá, tudo foi recompensado pela bela vista que se tem da cidade. Por ser mais alto que o albergue, tem-se uma vista ainda melhor e mais ampla. E a igreja por si só é bem bonita também. Passei no caminho das rosas, vi a torre de ferro (uma torre Eiffel menor), passei num caminho alternativo e por uma ponte que dava uma visão boa da cidade do outro lado. Procurei o museu e os anfiteatros, mas tava um saco lá por causa de um tal de festival. Vi o portão aberto, entrei, mas depois de um tempo veio uma moça com cara de quem não dormiu direito dizendo que eu não poderia estar com a bike lá. Não tinha aviso nenhum aviso e acho que o guarda tinha ido ao banheiro, porque ninguém me barrou. Filmei mais ou menos o que deu, mas não cheguei a ver bem, principalmente o anfiteatro maior. Aí no museu também não podia entrar por causa disso, porque fica tudo junto lá. Então foi viagem perdida. Uma pena, porque acho que deveria ser um museu bem interessante. Mas tudo bem, tem outras coisas pra se ver na cidade. Desci o morro, e continuei o roteiro. Filmei outra igreja que tem no pé do morro, filmei as ruas antigas da Vieux Lyon e alguns lugares interessantes que ficam por ali, como um ateliê de tecidos, o museu da miniatura, nesse entrei só um pouco, peguei umas imagens e fui embora, porque eu queria mesmo era ver o museu dos irmãos Lumière, e não tinha nem tanto tempo nem tanto dinheiro. De qualquer forma deu pra se ter uma noção boa da coisa.
Fui filmando algumas coisas pelo caminho como o rio Sahone e umas praças. Parei no McDonald's denovo pra ver se o meu amore tinha lido o meu e-mail e se, principalmente, ela tinha marcado alguma hora como eu havia pedido pra que pudéssemos teclar um pouco. E deu certo. Já era quase meio dia quando vi e ela ia entrar às 8h no Brasil, ou seja, na França seriam 13h, tava quase na hora. Parei na praça Bellecour, comi o resto do pão de ontem com outros restos, esperei mais um pouco e fui na lanchonete me conectar novamente. Sentei-me à uma mesa, liguei o Pocket, ainda faltavam uns 10 minutos, e quando deu 13h em ponto ela entrou. Foi muito bom poder teclar com ela por quase uma hora, apesar de que quando fui gravar a conversa num texto do Word, o Pocket deu pau, não saía do lugar, acho que esquentou muito, muita coisa aberta, muita atividade e ainda recarregando a bateria, esquentou demais. De qualquer forma terei bons trechos dessa conversa gravados em minha memória.
Ela estava com o dia lotado de coisas a fazer, então tivemos que desconectar pra cada um continuar seu rumo.
Fui até o museu dos irmãos Lumière, e foi uma surpresa pra mim. Porque lá foi onde morou Antoine Lumière, tem o quarto dele, as coisas dele, tudo muito interessante isso. Além de poder ver as invenções deles, a evolução dos equipamentos, é onde foram pensadas, na própria casa dele. Só isso já valeria uma visita, sem contar que o lugar é muito lindo. Vi o museu todo, dei umas voltas, filmei tudo por lá, inclusive umas crianças cantando no jardim.
Fui até o famoso parque Tête D'Or, o maior da cidade, conforme haviam me indicado a cantora e o namorado dela. E realmente é muito lindo lá e tem de tudo. Cultivo de plantas, animais, muito verde, pessoas nos gramados comendo, deitado, sem fazer nada, muito bom isso. Aproveitei pra beber mais água da boca do leão (a torneira era uma cabeça de leão), enchi a garrafa e dei mais umas voltinhas no parque pra pegar mais imagens.
Depois filmei mais um pouco da cidade, inclusive o grande Rhône, que afinal de contas dá nome à região. Eu estava morrendo de fome, porque havia acabado a comida e tava tudo no albergue o resto. Parei no Petit Casino (é uma rede de supermercado), comprei algumas coisas pra comer na hora e comprei macarrão também porque eu tava com muita vontade de comer. Mas a cozinha no albergue a noite fica lotada, aí desisti. Comi umas bruschettas com queijo brie, Pringles e salsichas enlatada. Até que foi uma boa combinação, talvez por não ter outra. Mas quem sabe amanhã como o macarrão. Pelo menos o resto das bruschettas com brie irei comer, ou na viagem ou no almoço, quando chegar em Bordeaux.
O importante disso tudo é saber que posso tomar minhas próprias decisões quanto ao que fazer, quando fazer e como fazer. Porque tudo é uma questão de escolhas, como já dizia Sartre, o homem é condenado a ser livre.

Tanto que quando fui comprar a passagem pra amanhã, a moça disse que eu não poderia levar a bike montada no trem, então eu quis mudar o roteiro, ir pra Nice ou Marseille mesmo, mas depois desencanei e resolvi fazer o que já havia pensando, andar de bike. Porque se não, depois teria que pegar mais um trem pelo menos. E eu não agüento mais ficar pegando trem, mesmo tendo um certo incentivo pra levar a bike é meio complicado quando se tem um monte de bagagens e outra, quero ter a experiência de ir só de bike por um longo trecho durante dias. Afinal de contas era mais ou menos isso que eu queria fazer desde o princípio. O problema é que eu queria passar por vários lugares, e pra fazer isso nesse período de tempo, só de trem mesmo. Mas agora que irei pra região mais famosa e que produz os melhores vinhos do mundo, não me importarei em me perder um pouco no meio desses vinhedos.
Quanto a Lyon, gostei muito da cidade, apesar da subida que tive que enfrentar algumas vezes, mas foi bom pra aquecer e fortalecer as pernas.
O grande problema é que terei que arrumar tudo e dormir cedo e, acima de tudo, colocar despertador pra acordar bem cedo, sair no escuro e pegar o trem que sai às 6h51, mas acho que é a melhor opção, mesmo tendo que fazer baldeação, ou como se diz por aqui, correspondence.

Décimo dia (01/09/2006): rumo a Lyon


Ainda bem que consegui um trem logo cedo pra não ter que ficar mais tempo ainda em Genève, porque a cidade realmente me decepcionou, mas tudo bem, mesmo tendo gasto mais do que imaginei, foi uma experiência boa assim mesmo.
Amanheceu chovendo, fui tomar um café, ruim por sinal, ou eu que não estava muito bem, e fui até a estação pra voltar logo a França. Pelo menos eu já estava familiarizado com o local e foi bem fácil chegar até a estação, peguei a avenida da loja de Ferrari e segui reto, de repente, cheguei. Bem fácil, coisa de 1km. E como eu havia levantado cedo e era bem pertinho, cheguei às 8h30 e o trem parte às 10h30. Ou eu pegava esse, ou pegava um que saía às 6h e pouco, aí achei meio complicado acordar tão cedo. Esperei um pouco e até achar o lugar, até chegar lá, até passar pela Polícia Aduaneira, já era 10h30. Porque eu não achava nenhum balcão pra pedir informação, como os que tinham nas estações da França, achei muito complicado, só é fácil pra quem já conhece o lugar, se não fica meio perdido mesmo, ainda mais com as coisas escritas em francês e alemão.
E eu ia entrevistar um dos meus colegas de quarto que é do Afeganistão, mas à noite ele sumiu e de manhã ele saiu correndo dizendo que tinham roubado dinheiro dele, achei tudo isso muito estranho, resolvi de ir embora logo desse lugar, porque a coisa tava feia mesmo.
Inclusive pelo fato de que era o albergue mais controlado que já fiquei. Tinha o cartão pra tomar café da manhã, só com o cartão que entrava nos lugares, tinha armário pra guardar as malas. Nos outros eu deixava tudo no quarto mesmo e não sumia nada.
Viagem de trem, nada pra fazer além de ver o varrido verde ao lado, porque o vagão ia bem vazio novamente, então de repente, numa estação entrou um casal. A moça ficava cantarolando o tempo todo. Me levantei e pedi se poderia gravar um pouco ela cantando pra colocar no meu documentário, ela disse que sim, então gravei um pouco dela cantando e ele também ouvindo.
Chegando em Lyon consegui um mapa. Com ele pude ir direto ao albergue e deixar as malas, após enfrentar a longa subida. Era muito íngrime mesmo. Mas valia a pena, porque além de ser na parte velha, lá de cima se tem uma bela vista da cidade.

Mas hoje era dia de tentar esquecer o passado na Suíça. Então peguei a bike, e o mapa claro, e fui dar umas voltas pela cidade. Sentir um pouco mais o ambiente.
Comprei umas coisas pra comer e sentei-me num banquinho, ali perto do albergue mesmo, às margens do rio Shaone. De repente veio um cara muito estranho falando comigo, falando que eu tava comendo, o que eu tava comendo, ele parecia meio embriagado, mas sei lá. Acho que ele viu uns policiais vindo e se foi. Porque da mesma forma que apareceu, sumiu, e logo depois vieram uns policiais. Bom pra mim. E mais um tempinho depois, veio uma simpática senhora, pediu pra sentar ao meu lado, eu disse que não tinha problemas. Porque ela morava logo em frente, mas não queria ficar no apartamento porque tava muito quente. Acabei de comer, não falei muito com ela, porque eu fiquei mais mastigando mesmo, e fui seguir o meu tour por Lyon. Fui sem rumo certo, só pra andar um pouco, ver coisas novas e me preparar para o dia de amanhã e a viagem a Bordeaux, que será um divisor de águas, porque depois de lá, irei só de bike. Espero poder chegar até St Malo, sem muito esforço, pra curtir mesmo viajar só de bicicleta.
Em minhas andanças descobri o McDonald's com wifi de graça. Foi perfeito. Pude usar por mais de 2 horas e ainda aproveitei pra comer, tudo isso por um custo relativamente baixo. E ainda tinha um cara usando notebook, aproveitei pra passar as fotos da câmera pro cartão SD do Pocket.
Voltei ao albergue satisfeito com a internet e o lanche forrando o meu estômago.
Tomei um banho, me arrumei e fui conversar com um pessoal que estava lá no mirante sem fazer nada também.
A cidade tem muito a oferecer em termos culturais, gastronômicos e de lazer. Existem muitos museus interessantes aqui, temáticos por assim dizer, como o da Miniatura, do Tecido, do Calçado, dos irmãos Lumière e um de guerra, claro. Gastronomia é famosa, dizem ser a capital gastronômica da França, ou seja, é o centro do centro. E realmente, ali mesmo na velha Lyon tem muitos restaurantes, bistrôs e vários locais com um ambiente muito interessante e a comida, perfeita!