Relatos de viagens ciclísticas.

domingo, setembro 24, 2006

O último dia na Europa, rumo pra casa...

Amsterdã realmente tem muita bicicleta...
Mais uma noite acampando na borda do Loire, uma maravilha, uma vista magnífica quando vou dormir e quando levanto logo cedo, mesmo com o frio e, dessa vez, sem chuva. Perfeito. Levantei 6h50, mais ou menos a mesma hora de sempre, com o diferencial que dessa vez eu acordei levantei mesmo e comecei a arrumar as coisas, comi e tudo mais, sem essa de ficar mais 10 minutinhos. E como não choveu, tava tudo bem sequinho, só embaixo da barraca mesmo que tava meio molhado, mas perto dos outros dias isso não era nada. Consegui colocar tudo dentro da sacola, meio apertado, mas foi, porque ontem nem tinha dado certo, ficou coisa de fora, muita água e capim junto. E o dia começou bem e continuou bom, sem chuvas ou qualquer ameaça de chuva pela frente. Pude sair tranquilamente, depois de ir ao banheiro, porque isso é uma coisa clássica. Pedalei com calma até o centro, dei mais umas voltinhas por lá, tirei mais umas fotos, agora com o sol batendo de outro lado, essa é a vantagem de pegar o início e o fim do dia na cidade, pode-se observar as coisas em todas as horas. Até no camping mesmo tirei mais umas fotos, já que o cartão tava livre mesmo, aproveitar pra tirar foto. E acho que ela ficou bem legal, porque não importa só a quantidade, mas a qualidade da foto. Somando-se ainda o tanto de filmagem, tenho bastante material pra fazer o documentário, site, livro ou o que eu quiser fazer.
No centro aproveitei e fui em busca de alguma padaria pra comprar alguma coisa e levar na viagem, porque imagino que em Paris vai ser pauleira, pedalae e ainda desmontar a bike e tudo mais, nem vai dar tempo pra mais nada. É bom deixar garantido. E foi melhor mesmo, comprei um sandudiche e 4 pain au chocolat, porque tinha uma promoção, levava 4 pain au choco por 1,70€, gastei no total 4,40€. E aí começou uma coisa interessante que iria se repetir mais à frente, na hora que fui pagar, não achava um lugar pra deixar a bike e pegar as moedas no bolso, ainda com a luva, então uma mulher se dispos a segurar, achei estranho, mas sei lá, vai saber. Só que nessa vida nada é de graça mesmo, depois ela pediu dinheiro pra comida. Coloquei a mão no bolso e saiu uma moeda de 0,02€, fazer o quê?! Sorteio é assim mesmo, se tivesse saído uma de 0,5€, mas foi só isso mesmo, ela fez cara feia, mas acho que tá bom. Depois fiquei pensando que seria melhor ter dado um pain au chocolat pra ela.
Dei mais uns rolé pelo centro, passei numas ruazinhas estreitas e obscuras, depois fiquei na praça Martroi, junto a estátua da heroína virginal francesa, Joana D’Arc. Aproveitei pra anotar algumas coisas nos meus papeizinhos, mas o cheiro do esgoto tava meio complicado, acho que passa bem embaixo ali, e tem uma grade, então acho que subia o cheiro, mas é assim mesmo. Pelo menos a estátua dela ao nascer do sol era bem linda, ficava de frente pra ele, a melhor hora pra tirar foto, ainda mais que o dia estava praticamente sem nuvens, uma beleza mesmo. Um bom dia pra guardar de lembrança do Loire.
Já passam das 9h30, em uma hora estarei indo pra Paris onde troco de estação e sigo direto até Amsterdã. Uma pena não parar na Bélgica, mas preferi ficar mais tempo mesmo na França dessa vez. Em outra oportunidade eu faço Bélgica e Holanda, ou apenas um ou outro. Ver as coisas com mais calma e mais detalhes, pra ir saboreando melhor, não só pedalar que nem louco.
O trem chegou, perguntei qual era o vagão pra subir com a bike, ele me indicou e só pediu que eu aguardasse um pouco até que o funcionário desgrudasse o trem do vagão que seria o último. E na hora de subir a bike, com todas as bagagens, outro funcionário da SNCF até ajudou com um belo empurrão, porque subir aquela escada com a bike cheia de coisas não é nada fácil. E ela é larga, às vezes engata na porta, complicado. Dessa vez foi bem tranqüilo. Deixei ela inteira, com todas as bagagens mesmo, apesar de ter anotado que era preciso ensacar a bike. Mas aí não daria tempo pra eu ir de uma estação a outra em Paris, como ninguém reclamou, nem falou nada, até ajudaram a subir e ajeitar a bike a ficar mais firme pra não cair. Totalmente diferente do trem que peguei para Suíça, no qual paguei até multa por ter levado a bicicleta sem reserva, isso que eu avisei que levaria a bicicleta.
Os trens realmente são bem pontuais, cheguei na hora exata em Paris, mas até descer e pegar o rumo vai um certo tempinho. E a viagem foi bem rápida e tranqüila, é muito perto, acho que menos de 150km. A paisagem é aquela de sempre, verde varrido, alguns moinhos de vento modernos que geram energia e dentro do vagão algumas pessoas que só ficam olhando pra fora, outras lendo, uns jovens também lendo, mas era revista Bravo, de fofocas, como as Capricho da vida. E todos eles com seus celulares modernos, cheios de recursos e ficam usando na viagem toda, inclusive pra telefonar, porque os celulares funcionam em praticamente todo o território, esses dias vi uma mulher falando ao celular numa fazenda perdida no meio do caminho, muito bizarro isso. Além do celular, chiclets e máquinas fotográficas digitais, claro, porque isso é um item essencial hoje em dia. Todo mundo tem uma nem que seja mais ou menos pra ficar tirando foto e lotando o PC de fotos. Eu fiquei sentado de costas (pra observar a bike), naqueles bancos duplos, ou seja, fiquei de frente pra um cara que devia ser da Índia ou de algum país daqueles lados de lá, ele tinha daqueles cubos coloridos que vai virando até encaixar todas as cores. E ele era bem rápido nisso, não sei se por prática ou se ele fazia sempre igual, treinou um jeito de embaralhar e decorou os passos. Porque às vezes ele nem olhava pro cubo e conseguia fazer, muito bizarro isso, mas vai saber. De repente ele tem um dom pra isso.
Cheguei na hora em Paris e fui da Gare D'Austerlitz até a Gare du Nord. O trânsito estava horrível, mas como eu estava de bike, tanto faz, porque vou pela pista exclusiva para ciclista. Só fiquei com medo de que chovesse, mas apesar de algumas nuvens, nublado, não houve nenhuma precipitação. E pra variar, a Europa toda em reforma. Verão, eles aproveitam, a Gare estava um canteiro de obras, mas foi tranqüilo entrar lá. Desmontei a bike, guardei e logo vi em qual via o trem iria chegar. Nem peguei carrinho, foi meu erro. Porque pra variar, era o penúltimo vagão, e eram 2 trens grudados, tive que andar muito levando a bike e as malas, nem sei como consegui. Eu não sabia, vi o primeiro vagão era o 22, achei que fosse diminuindo, e como o trem estava meio em curva, nem vi até onde ele ia, fui andando e o número foi aumentando, achei estranho, perguntei se era esse trem mesmo, ele confirmou e disse que era mais pra frente e lá fui eu carregando todo esse peso e muito ruim de carregar por sinal. Meu braço ficou meio duro, meio sem resposta depois, mas com o tempo, durante a viagem recuperei o movimento natural. Só a mão direita que ainda tá meio estranha devido as marchas que tenho que trocar a toca hora, mas talvez seja a posição muito alta dela, que força meu dedo. Chegando em casa, na hora de montar, vejo isso direitinho.
Só sei que deu na estica, subi no trem e as portas fecharam e ele saiu andando. Mais um pouco eu perderia, aí estaria fodido. E um fato a ser ressaltado é que enquanto eu desmontava a bike veio uma pedinte insistente e ficou lá querendo alguma moeda, e eu querendo desmontar tudo e ela me enchendo o saco. Depois ainda vieram mais duas. Imagine se eu der uma moedinha pra cada uma delas, daqui a pouco eu que estou pedindo.
Pouco depois eu fui ao banheiro e bateram na porta, era o cara do ticket, talvez ele achou que eu fosse penetra. Peguei a passagem e mostrei pra ele. Depois comi o sanduíche e os pain au chocolat, porque já tava com fome a essa hora, depois de ter feito um certo exercício.
Como eu tinha muita viagem pela frente e a paisagem passa rápido, nem dá pra ver nada direito, às vezes nem tem o que ver mesmo e mais uma vez eu estava de costas, resolvi fazer um balanço de quantos quilômetros eu já tinha feito de bike. Resultou em 1866,82km, mas ainda faltam uns dados e preciso conferir os outros. Ou seja, foi mais ou menos o que eu havia pensando, 2000km.
Chegando na Bélgica vejo chuva. Quando o trem parou em Bruxelas às 2h20 era chuva mesmo. Ainda bem que nem passei por lá, mas é bom saber que quando eu for tenho que ir mais preparado para o frio e chuva. As cidades são muito próximas, em poucas horas estava em outro país completamente diferente, isso é muito interessante aqui na Europa. Basta andar um pouco pra mudar muita coisa. Mesmo assim ainda tinha muito trilho pela frente, somando-se as paradas que ele vai fazer, demora um pouco ainda. O que me resta é esperar, olhar as pessoas, olhar o verde-varrido e descansar um pouco. Fui ao banheiro de novo, porque é sempre bom descarregar as coisas que não nos interessam mais e aliviar o peso.
É até interessante pensar que daqui a pouco estarei num país totalmente diferente e dentro de mais algumas horas estarei no Brasil, em casa. Depois desses 30 dias longe, sozinho, me virando como dava, uma coisa de louco isso, toda essa experiência, fotos, fatos, vídeos. Daqui pra frente não sei se irei entrar em contato com alguém antes de chegar em Sampa, acho que só lá mesmo. Mas pelo menos deixei todos avisados que estava tudo certo e eu ia chegar em casa no dia previsto mesmo, com todas as coisas. Não vejo a hora de poder ligar pro meu amore e dizer: cheguei! Aí vamos matar um pouco a saudade que já é muita, porque faz um mês e meio que estamos longe, isso é muito tempo pra nós, mas na medida do possível vamos acostumando.
Até Amsterdã passei por muitos trechos que chovia muito, comecei a ficar preocupado com relação ao camping e mesmo como andar pela cidade com chuva, não é uma coisa muito agradável quando não se está preparado pra isso. Para minha alegria o trem chegou pontualmente e o tempo estava bom, apesar de umas nuvens escuras por perto. Desci todas as bagagens e a bike. Dei início ao processo de montagem, levei uns 40 minutos e a roda da frente não ficou muito boa, ficou raspando novamente no freio, não consegui ajeitar e também mais algumas poucas horas estaria desmontando-a novamente pra transportar no avião. Então fui assim mesmo.
Aí começaram os problemas. Fui procurar informação na Gare, mas não encontrava. Em frente, do outro lado da rua, achei uma placa de informações turísticas. Cheguei lá e estava fechado, mas tinha uma máquina que vendia mapa da cidade a 2€, resolvi comprar, porque assim ficaria bem mais fácil pra mim. Problema dois: no mapa não constava o endereço que eu tinha do camping. Não tinha a menor idéia de onde ele ficava. O mapa mostrava bem o centro e pontos turísticos, mas como o camping ficava mais retirado, não contava no mapa. Depois descobri que era perto do aeroporto. Problema três: chuva. Começou a chover. Chover forte. Voltei pra Gare e fui procurar novamente por informações. Dessa vez rodei, rodei e encontrei. E realmente o mapa tem que comprar, eles não fornecem como nos Office de Turisme da França. Mas também esse não era tão caro assim. E quando eu voltar já terei o mapa. Pedi pra moça informações sobre albergue e camping. Pra reservar nos albergue que ainda tivesse vaga, porque a maioria estava lotado já, tinha que pagar 3,5€ e depois mais a diária. E nos campings tinha que ir vendo. Pensei em ir no perto do aeroporto, mas com essa chuva ia ser uma nhaca pra montar e desmontar logo cedo.
Ainda esperava a chuva passar. Olhei no mapa com os campings da cidade que peguei no balcão de informações qual a direção que deveria pegar. Mas pelo avanço das horas, distância, complicações de montagem e desmontagem na chuva, resolvi então fazer uma coisa mais prática, porém não muito recomendável de se fazer sempre: ir direto ao aeroporto e esperar.
Saí do centro, da estação, mais ou menos às 20h, fui indo tranquilamente, sem pressa, pra ver um pouco da cidade, até tirar umas fotos só pra dizer que passei por lá e registrar o tanto de bicicletas que tem. Muito legal isso, nunca vi tanta bike assim, parece que só tem bicicleta na cidade. Me perdi um pouco também naquele monte de canais, mas depois que peguei o rumo certo não tive mais problemas, eu acho que estava olhando o mapa ao contrário do que era, aí não tinha como chegar mesmo. Já estava escurecendo por causa das horas e do clima, então nem deu pra tirar mais fotos depois de uma certa hora. Foi só pedalar pra chegar ao aeroporto mesmo. Mas antes coloquei uns plásticos na bike porque parecia que vinha mais chuva pela frente, e é sempre bom estar garantido. Um pouco mais pra frente um ciclista veio falando comigo em holandês, não entendi nada, depois ele falou em inglês, aí deu pra manter uma comunicação básica. Ele queria saber se eu tava vindo ou indo, de onde vinha, essas coisas. Aproveitei e perguntei se pra chegar no aeroporto era por essa direção mesmo, ele confirmou e eu fui indo. E também tinha placa que indicava a direção para quem estivesse indo de bicicleta. Um pouco mais pra frente começou uma garoa fina, aumentou um pouco, mas não passou disso. Estava meio constante e molhou um pouco. Mas ia secar rápido. Peguei a rua Amistel inteira, vários bares que vendem a cerveja com esse nome. Seguindo o canal fui indo, indo e indo. Era bem longe mesmo, porque dava muita volta, tinha muita curva, mas eu tinha tempo e era de graça. E assim foi uma forma de pedalar em Amsterdã. Eu andei mais do que o esperado. Já tinha feito uns 20km quando apareceu uma placa indicando mais 13km até o aeroporto. Mas era muito tranqüilo de pedalar por lá, sem subidas ou descidas, sem vento forte, uma maravilha, por isso tem tanta bike no país. Num ponto mais próximo ao aeroporto tinha 3 indicações, não sabia qual seguir, fui numa vi que não ia dar em nada. Voltei na outra, mas acabei chegando no hangar de manutenção e escritórios da KLM. Só restou a última alternativa que deu certo, claro. E era bem longe ainda, uns 6km. Mas também, só pra contornar o estacionamento que é gigante, foram uns 4km. Sei que ao todo, no dia, fiz 56,46km em 4h11, deu bastante tempo porque a maioria eu ia empurrando e depois andando devagar pra não respingar a água acumulada no chão por causa da chuva. Cheguei ao aeroporto só às 22h30. Demorei mais do que imaginei. Comecei achar bom ter ido direto, assim poderia fazer tudo com calma e tranqüilidade, evitar problemas e atrasos. Comecei a desmontar a bike e organizar as bagagens, troquei algumas coisas de bolsas, deixei o essencial na mão e o resto despachei. E a bike eu encaminhei no setor de cargas com medidas especiais, mas ninguém me cobrou nada, não sei se pago na hora que chegar não entendi, só sei que é melhor assim.
Entrada principal do aeroporto de Amsterdã
Tive um monte triste no aeroporto. Fiquei olhando minhas garrafas de água que me acompanharam por quase todos os 30 dias, me hidratando durante o percurso. Pensei em leva-las pra casa, de lembrança, mas não tinha onde levar. Elas ocupam muito espaço. Não tive outra alternativa se não jogá-las no lixo. Foi uma cena triste, mas necessária.
Terminei de arrumar tudo era quase meia noite, se for ver o tempo que demorei pra chegar até a hora de estar com tudo pronto pra embarcar não sei se daria certo se eu tivesse feito como o planejado, de ficar num albergue, acordar umas 7h, tomar café e sair. Capaz de não dar tempo. E se chovesse ou se acontecesse algum imprevisto, aí sim eu estaria ferrado. O único inconveniente foi não ter tomado banho, mas de qualquer forma ficaria um bom tempo sem banho, e iria pedalar e desmontar e organizar as coisas mesmo, no fim nem mudou tanto assim.
E quanto a ver a cidade, já era noite mesmo, e de manhã não ia dar pra ver muita coisa, não tinha o que fazer mesmo além de esperar. Deu pra ter uma boa noção da cidade e acho que ter ido ao aeroporto direto foi o melhor mesmo nesse caso. Se eu tivesse só uma mochila, poderia ter optado por ir de metro, ônibus, logo cedo, mas pedalando tudo fica mais complicado. Como ficar em camping de bike, demora muito pra se organizar e eu ainda iria pedalando, talvez me perderia, ia ser um sufoco, tudo na correria, poderia dar algum problema e até perder o vôo.
Comecei a sessão cafeína. Comprei uma garrafa 0,5cl de coca e um croissant, paguei 5,45€ e o croissant era horrível. Só tinha preço. Tem até o Burguer King, um pouco mais caro que na estação do centro. Mas isso de novo não. E no avião eu como mais. Apesar de ainda ter bastante tempo pela frente.
Já são quase uma hora da manhã, fui escovar os dentes, porque fiquei com a necessaire juntamente com os copos da Coca e os eletrônicos na bolsa de mão. Que além de ser o principal, é o mais frágil. Os dentes pelo menos eu limpei, porque tava precisando, só o banho e a barba mesmo que não teve jeito.
E lá se foram os 30 dias, agora faltam umas poucas horas apenas para o embarque, depois tem mais uma pequena maratona e casa, comida e banho.
Como eu tinha tempo e não tava afim de dormir, resolvi ver se tinha conexão wifi no aeroporto, assim, de graça, porque ter eu sabia que teria. E de graça lá só o ar pra respirar mesmo, e os banheiros, ainda bem. Pude ir várias vezes, pra escovar os dentes e tudo mais. Quanto ao wifi paguei 10€ no cartão pra usar durante 24h, apesar de que usei umas 4h e pouco. O que deu um custo bom de uso. Sem contar que fiquei teclando com o meu amore durante um tempão, no final nem sei ao certo quanto, mas foi muito tempo. E ela estava com os amigos estudando em casa, acho que acabei atrapalhando um pouco as coisas, mas eu queria tanto teclar com ela, dia 21, um dia especial pra nós, e foi o segundo que passamos longe, seguido. E outra coisa boa foi o fato de eu ter achado uma tomada pra plugar o Pocket, se não nem teria como usar por tanto tempo. Tive que ficar com ele no colo, porque não era perto da mesa, mas foi tranqüilo. Ele é levinho e pequeno.
Tomei mais um capuccino 1,5€ e depois mais um café 1,5€. Foi bom pra me manter acordado e liberar o peso das moedinhas do bolso. Tinha tanta, mas que não dava nada.
No mais só esperei mesmo, pra depois ficar mais tempo sentado, mas em locomoção. Aí anda um pouco, pega ônibus, anda mais, mais ônibus e casa. Reta final da maratona, coragem e vontade nessas horas.
Última visão de Amsterdã, a janelinha da passagem até o avião que me levaria ao Brasil
Como passei o dia acordado direto irei continuar a falar o que fiz aqui mesmo. Lá pelas 7h fui fazer o checkin. Demorei uns 30 minutos. Apesar de ter os pontos de auto-atendimento, achei melhor ir no caixa, por causa da bike e tudo mais. E agora estou quase contando o tempo em minutos para o embarque. Esperei um pouco, passei os portões, tranquilamente, dei uns rolés rápidos pelas lojinhas, mas achei tudo meio caro, só as promoções mesmo que valem a pena, o resto é o preço normal.
Parênteses 1: o dia amanheceu lindo, com um sol brilhante.
2: a bike pesa 19kg.
3: já se foram as 24h acordado direto.
4: quanto mais perto chega da hora parece que o tempo fica mais longo. Quando era meia noite, de repente era 1h, e mais um pouco 2h, mas quando faltava meia hora não passava. 10min então...
Pode ser pelo simples fato de eu já estar mais de 10h no aeroporto, fica meio maçante, mas tudo bem.
Embarquei, me sentei, dormi só alguns minutos, depois não consegui mais. Fiquei vendo filmes, vi três: Scary Move 4, Boa Noite, Boa Sorte e O Matador. O primeiro foi em inglês e os outros dois dublado em português. Até que foram bons os filmes, e o Boa Noite, Boa Sorte é muito bom mesmo. Até que não tinha dormido tanto no cinema de Sampa. No mais, só comi, bebi, fui ao banheiro, estiquei as pernas, escrevi no Pocket, fiquei escutando música, mas o tempo não passava, é muita coisa. E vai ter mais um pouco ainda, mas como eu já disse, coragem.
Uma coisa é certa, apesar da saudade, da distância, do desgaste, dos problemas, eu faria tudo de novo.

Vigésimo nono dia (20/08): rumo Orléans


E aqui chego no meu último dia na França, amanhã parto para Amsterdã, Holanda. Mas foi uma viagem muito boa pra mim, estava pensando nisso nesses últimos dias, tudo o que passei, tudo o que vivenciei, vi, senti, as pessoas que conheci, as trocas de experiências, tudo isso me ajudou de alguma forma, foi tudo muito bom, muito válido.
Levantei hoje lá pelas 7h novamente, como de costume, depois de ter chovido à noite, como de costume também, arrumei as coisas molhadas e sujas de grama como de costume, mas dessa vez elas nem entraram direito no saco da barraca, tive que deixar algumas coisas de fora, mas tudo bem. O importante é que eu consegui carregar tudo. Só que mais uma vez tive que ir em busca de uma padaria pra comer alguma coisa, pois fazer 16km logo cedo sem comer não tem jeito. Fiz um bem reforçado, sanduíche, croissant e, como não poderia deixar de ser, pain au chocolat, tudo isso por 4,70€. Já eram quase 10h quando fui seguindo as placas que indicavam como chegar a Beaugency de bicicleta, o percurso tem 16km e é bem demarcado. Comecei por um caminho de asfalto no meio de uma floresta, com algumas plantações, campo aberto. De repente comecei a ver duas chaminés enormes. Cada vez elas estavam mais perto. E como o ritmo da pedalada era bom, não demorou muito até eu chegar na borda do rio, onde haviam alguns pescadores, e a usina nuclear de geração de energia. Eu nunca tinha estado tão perto de uma. E ela é gigante. Estava funcionando a meia força, saia fumaça de uma chaminé. Sei lá, dá medo essas coisas, mas acho que eles tem um bom controle de segurança, ainda mais depois dos famosos acidentes ocorridos em alguns lugares. O percurso continuava por dentro de cidadezinhas e trilhas entre muros centenários, coisa que só vê quem faz de bicicleta mesmo. Depois passava por uma plantação de milho, coisa comum por aqui, e mais floresta. Aí peguei um trecho mais no final de uns 2km de chão batido mesmo. Mas não tive problemas em andar, mesmo carregado. E logo pude ver a cidade de Beaugency, depois de 1h de pedalada e 18km percorridos, 2km a mais porque fui em busca da padaria. Chegando lá, fui até o Office de Turisme que estava fechado, então resolvi explorar a cidadezinha na raça mesmo. Filmei os pontos principais e comi um Éclair de café. Esse doce é como a nossa bomba ou carolina, só que bem maior, mais comprida, e com muito recheio, é uma bomba calórica e de açúcares, muito bom pra quem pedala, paguei 1,45€, acho que foi a mais cara até agora.
Numa passagem encontrei um banheiro meio sujo, mas como eu só queria desaguar mesmo, fui lá. Quando saí tinha um senhor de bicicleta que veio falar comigo, perguntar da bicicleta, da viagem, de onde eu vinha, pra onde eu ia, o que eu fazia, de profissão, essas coisas. Ficamos falando do Brasil, de futebol, de bicicleta, da França, foi muito legal isso. Ele era bem animado.
Logo depois segui até Orléans, dessa vez pela N152 mesmo, pra chegar mais rápido. E foi bem tranqüilo mesmo, meio dia eu estava na entrada da cidade. Tinha visto que na cidade vizinha havia um camping, mas antes fui até o centro, pra conferir no Office de Turisme se era o único e o mais perto. Realmente era. Voltei até o camping, uns 5km, mas a recepção abriria só as 17h, e mal eram 13h. E li nos papéis da parede que antes era preciso fazer o registro, porque se não eu ia montar a barraca de deixar as coisas aqui, pra ir com menos com peso. Voltei ao centro, comi um Kebab, creio que o último da viagem. Acompanhado de fritas e uma latinha de coca, claro, por 5€. E esse era bem generoso. Fiquei comendo e vendo TV, canal TF1. Vi uns comerciais, é tudo meio parecido no mundo todo, na TV nada se cria, tudo se copia. Isso em todo o mundo, não só regionalmente, em cada país. Tem os reality shows, jornais, programas de entretenimento, comerciais estranhos, tudo igual.
Fui filmar a cidade antes que chovesse, porque vinha vento do lado de nuvens escuras. A hora que saí deu uns pingos, mas logo passou, alarme falso. Em contrapartida isso queria dizer que logo mais vinha com mais força, porque já aconteceu isso antes. Esperei um pouco, e já eram quase 14h. Filmei os principais pontos da cidade pelo o que eu ia vendo no mapa, e a cidade é muito linda, pequena, sem contar o fato de ser domingo, tudo vazio, fechado. Foi bem rápido pra fazer, sem problemas. Só a hora que choveu mesmo, esperei um pouco, mas foi bem rápido. É bom, porque estou perto de Paris, e espero que amanhã não chova, pelo menos na hora que eu for de uma Gare a outra, se não, vai molhar um pouco.
Avenida Joana D'Arc e ao fundo a Catedral imponente de Orléans
Como eu tinha um tempinho sobrando, fui usar a internet numa lan house, ver se encontrava o meu amor online de novo, mas dessa vez não deu certo, domingo de manhã, lá eram umas 10h, ela estava fazendo algo melhor que isso. E também nem devia imaginar que eu entraria na internet novamente. Mandei um e-mail pra ela, outro para o Alexandre da CVC e aproveitei pra transferir as fotos da câmera para o cartão do Pocket. Ainda cabiam umas 20 fotos, mas achei melhor aproveitar o momento e zerar. Vai que eu preciso de um pouquinho a mais depois. Já que eu ia pagar 3€ pra usar mesmo, já fiz tudo.
Depois aproveitei pra gastar os meus últimos 4 minutos do cartão telefônico e liguei para o meu amore. Eu estava numa cabine telefônica ao lado da Catedral de Orléans, famosa e imponente. E como muitas outras construções, em reforma. Ainda bem que dessa vez deu certo, ela mesma atendeu, falamos apenas um pouco, mas foi um pouco bem intenso, muito bom poder ouvir a voz dela, e matar um pouco da saudade. Ela disse que bateu o carro, estou louco pra saber melhor essa história como que é, porque nem deu tempo pra falar isso, tínhamos coisas melhores a falar. Mas passou voando esses 4 minutos. E agora nem sei quando falarei novamente, acho que só quando chegar em Sampa. Mas o importante é que não falta mais muito para voltar pra casa, aí tudo volta ao normal, a rotina que às vezes é boa também. Mas acima de tudo, estar perto do meu amore.
Já tinha feito tudo, visto tudo o que queria, era hora de ir ao camping. Cheguei lá perto das 16h30 e fiquei esperando. De repente um senhor veio falar comigo e disse que eu poderia montar a barraca e depois fazer o registro. Eu achei que poderia fazer isso também, mas tava escrito aquela porcaria. Então ele me mostrou um outro papel que dizia que poderia montar e depois fazer o registro. Que boston, e eu fui e voltei, fiquei preocupado e carregado à toa, mas é assim, vivendo a aprendendo. Acabei de montar a barraca e guardar as coisas, a recepção abriu, fui lá, paguei 5,5€ e perguntei onde tinha supermercado. Ela me deu um mapinha que ela mesma fez, xerox, mas o problema é que nada abre hoje. Não teve jeito, fui jantar no McDonald's. Escolhi o Big Tasty, que é o melhor custo benefício e ainda ganhei outro copo, amarelo agora. Acho que fico com esse e dou o outro pro meu amore, não sei ainda. Gostei desse amarelo desde que vi na foto. E aqui foi 0,10€ mais barato que o último, paguei 6,70€. Depois do jantar, passei na padaria comprar umas coisas (4,10€) pra comer amanhã, porque não sei se dará tempo de comprar alguma coisa no caminho. Tenho que levantar, arrumar as coisas e ir pra Gare. Subir a bike no vagão, sei lá, melhor deixar garantido. Com a comida garantida posso comer durante o trajeto até Paris, porque lá vai ser pior ainda. Mais pauleira. E creio que terei que comprar alguma coisa no trem mesmo, espero que tenha o vagão de restaurante, ainda mais que é uma viagem longa, deve ter sim. Tem umas coisas boas, quentes. Um pouco caras, mas qual o preço de comprar comida num trem em movimento, não é mesmo?!
Estátua da Joana D'Arc, no centro de Orléans
Depois de ter feito tudo isso, já passava das 19h, resolvi levar o Pocket até o banheiro, porque tem uma bancadinha muito boa pra apoiar e usar na tomada, assim posso escrever durante um bom tempo sem me preocupar e ainda deixo a bateria cheia. Eu tinha muita coisa escrita em papéis e precisava passar a limpo, pra não acumular muito e perder muitos detalhes quando fosse escrever o diário. Fiquei umas 2h em pé escrevendo, mas valeu a pena, porque foi de graça. E ficar meio corcunda dentro da barraca também não é nada bom.
Hoje andei até que bastante, nesse vai e vem do centro-camping, totalizando 74,33km em 4h24. E os gastos totais foram de 27,45€, hoje foi bom, abaixo dos 30€ estipulados por mim mesmo. Sendo que eu queria manter a média assim, hoje foi o esquema. Deu tempo pra me organizar, ver o trajeto que farei em Paris e ainda coloquei o diário em dia. Depois disso tudo, descansei bem. Foi muito bom aqui em Orléans.
O descanço merecido, no último dia na França, antes de voltar pra casa...

Vigésimo oitavo dia (19/08): rumo a Muides-sur-Loire

Como sempre, além de ficar acordando durante a noite, vi no relógio que eram 6h e pouco, voltei a dormir. Só quando já eram 7h e pouquinho é que tomei vergonha na cara e levantei pra arrumar as coisas, já que demora mesmo. Dessa vez comprei umas coisas pra comer da boulangère que foi até o camping, é uma coisa normal aqui a padaria ir até o camping, porque as pessoas querem pão logo cedo. O problema é que as pessoas que vão em camping são aquelas que vão bem equipadas, ou seja, elas tem fogãozinho, panela, mantimentos, tudo. Eu queria sanduíche, mas só tinha baghette e pain au chocolat e croissant, claro. Comprei croissant e pain au chocolat, só pra variar um pouco. Gastei 1,65€.
Acabei de arrumar tudo e segui para o primeiro grande castelo do trajeto, Amboise. Cheguei pra almoçar, um pouco antes até, comprei um sanduíche num lugar muito bem decorado, moderno, em contraste com o grande castelo em frente. Paguei 3,5€ e estava muito bom. Filmei o castelo, um pouco da cidade, e não tinha mais o que fazer a não ser seguir.
Cheguei em Chaumont-sur-Loire às 12h30 depois de ter rodado 40,54km. Percebe-se que a pedalada rende mesmo. Mal passava do meio dia e eu já tinha feito tudo isso, levando em conta que saio tarde, é bem tranqüilo. Parei nesse pequeno vilarejo por alguns motivos: o castelo, a chuva e a comida. O castelo eu tinha fotografado já do outro lado do rio, mas a chuva estava vindo, então resolvi parar, comer e descansar. Acabou nem vindo chuva, melhor assim, só descansei e comi mesmo. E o sol continuava brilhando e refletindo no Loire e às vezes na minha cara também, mas é bom, melhor que chuva. Inclusive hoje o tempo estava muito bom, não sei se porque ontem eu tive uma experiência um pouco ruim, mas eu olhava para os lados e tava tudo aberto, poucas nuvens, o vento vinha, mas as nuvens carregadas não.
Antes das 14h eu já estava em Blois. Uma bela cidade, deu vontade de parar por aqui mesmo e ficar mais tempo aproveitando, mas o problema é que estou quase no final da viagem e não tenho mais muito tempo. E a vontade de fazer e ver ainda muitas coisas é grande. E não sei como será o clima, o que pode acontecer nesse trajeto, coisas como furar pneu, ficar sem camping, sei lá, tudo pode acontecer. Filmei, tirei foto e lá veio a chuva. Estava na hora dela, depois do almoço normalmente é o segundo período. Aproveitei e fui pra estação resolver a vida em relação a minha ida até Amsterdã, afinal de contas já estou com o dinheiro que saquei em Tours e creio que se for deixar pra comprar somente em Orléans pode ser tarde demais, não dar certo, sei lá, melhor garantir agora, numa cidade menor mesmo, mais tranqüila, mais tempo pra ficar no caixa pensando e conversando com o atendente. E foi muito bom mesmo. Vi os dias e horários que eu tinha pensado e visto na internet já, acabei optando pelo dia 21 às 10h36, de Orléans a Paris. Terei que ir da Gare D’Austelitz até a Gare du Nord, desmontar a bike e embarcar para Amsterdã. Terei 1h10 pra fazer isso. Ir de uma Gare a outra, desmontar a bike e achar a plataforma de embarque. Outra opção seria ir no dia 20, no final da tarde, mas aí eu chegaria em Amsterdã às 23h. Imagine eu lá, a essa hora, ia dormir na rua. Dessa forma que escolhi vou chegar lá às 17h, ainda claro, mais fácil de achar as coisas. E outra, prefiro ficar mais tempo na França, no Loire. Em outra oportunidade eu vou pra Holanda especificamente.
Paguei 110,10€ na passagem e mais 1€ no capuccino que tomei.
Não vai dar pra ver muito da cidade, porque até eu montar a bike, achar um lugar pra ficar, comer, vai estar tarde, mas pelo menos passarei por lá. E terei que levantar cedo pra ir ao aeroporto, desmontar bem a bike e despachar tudo, embarco às 10h, isso vai ser mais complicado ainda, dependendo da distância que eu estiver do aeroporto, mas depois que eu estiver no avião, já é meio caminho andando. Depois só terei que resolver a questão de ir até a rodoviária de São Paulo, com todas as bagagens e pegar o ônibus pra Ribeirão Preto, com todas as bagagens. Mas aí acabou.
E o dia aqui ainda não acabou. Tomei o capuccino, esperei a chuva passar, não demorou muito, aproveitei pra telefonar pra casa. Depois telefonei pro escritório da Neusa, mas o Xuxa que atendeu. Falei até bastante com ele, ele disse que a Neusa tava passando mal, meio doente, deve ser a saudade. Ainda tinha uns 4 minutos no cartão, resolvi ligar para o meu amore, mas ninguém atendeu. Liguei no celular e também não deu nada. Mas tudo bem, amanhã eu procuro alguma Lan House em Orléans e/ou telefone pra ela.
O tempo estava bom, estava cedo, já tinha registrado as principais coisas da cidade, o caminho era bom, os quilômetros passam rápido, resolvi ir até Chambord de uma vez por todas. Porque assim, amanhã terei mais tempo pra poder organizar as coisas. Já ganho um bom tempo.
Cheguei em Chambord, peguei um caminho para bicicletas que passa por dentro da floresta de Chambord, muito legal isso, lindo, mas tive que esperar um pouco a garoa que começou a cair. E isso não era um bom sinal porque indicava que poderia vir mais. Enquanto o tempo estava bom, fui filmando e tirando fotos. Da frente, do lado, de trás, das coisas perto, da mata, floresta, pessoas. Aí começou a chover pra valer. Parei debaixo de um telhado do centro de informações e aproveitei pra comer o lanchinho que eu havia comprado em Blois na La Mia Caline, eu gostei dessa grife de padaria, eles dão sacolas amarelas, boas pra guardas as coisas.
O meu problema agora era quanto ao camping. Ali perto não tinha nada, tudo reserva natural, eu teria que ir até uma cidade um pouco fora do caminho uns 9km. Mas fui pesquisando nos guias de campings que eu havia pego e achei um muito bom em Muides-sur-Loire. Eu havia me confundido com outro camping nessa mesma cidade que é de 4 estrelas, bem caro, mais de 20€. Achei que não teria jeito, mas havia também um camping municipal, na borda do Loire e por 5,5€, perfeito. Fui voando pra lá, porque já passavam das 19h, e mesmo sabendo que a recepção fica aberta até mais tarde, o problema era pegar lugar, arrumar as coisas, ir jantar, tudo isso demanda tempo. Só pra chegar lá já demorei uns 20 e poucos minutos. Fiz o registro, paguei, montei a barraca, tomei banho, fui jantar. Tinha um restaurante bem ao lado do camping, mas o menu mais barato era de 30€. Andei mais um pouco e parei num lugar que era Bar e Restaurante. Aí foi rootZ. Tinha só uns caras bebendo e falando alto. O dono mesmo bebia junto e até jogou sinuca com um cliente depois. Escolhi o menu de 14€ e um vinho de 2,5€ de 25cl da região de Touraine. De entrada veio a saladinha com alface, tomate, ovo (em conserva dessa vez), milho, presunto e azeite. Claro que o pão sempre acompanha. Pedi água da torneira pra beber também. Com a salada bebi água, pra economizar o vinho.
O prato principal eram uns bolinhos de batata fritos, bem bonitos e saborosos e carne de Agneau, umas tirinhas. Acho que era tudo congelado e ele só esquenta ou frita. Porque o molho da carne tinha gosto de coisa pronta. Isso que é foda desses lugares. Porque o dia que peguei o menu de 13€ foi tudo muito bom, feito por eles mesmo, na hora. Mas tudo bem, não tinha outro lugar mais barato pra comer mesmo e lá parecia bem limpinho. Depois ainda veio uma seleção de 3 queijos, emmenthal, cammembert e brie. E pra finalizar uma taça de sorvete sabor pistache e passas ao rum, escolha minha.
Durante o meu jantar surgiu uma família, acho que de alemães, muito grande, vieram, beberam umas coisas e foram embora. Ficaram só os bêbados mesmo e eu.
Chateau de Chambord
Acabei de jantar já eram 22h. Voltei até o camping, escovei os dentes e dormi, porque além de escuro, precisava descansar depois de um dia cheio. Pedalei bastante, 94,08km em 5h15. Mas como pode se notar novamente, é bem mais tranqüilo pedalar por aqui. E esse tempo é o total, contando quando ando mais devagar nas cidades, até empurrando a bike algumas vezes.
E os gastos do dia foram relativamente baixos, teve o pseudo-café-da-manhã por 1,65€, o sanduíche por 3,5€, o jantar da La Mia Caline (sanduíche e maxi pain au chocolat) 5€, o capuccino 1€, o camping 4,60€ e o jantar que foi o supra-sumo dos gastos 16,50€, o que totaliza 36,25€. Foi bastante sim. Tenho que dar uma maneirada de novo.

Vigésimo sétimo dia (18/08): de Chinon a Vouvray


Sexta-feira, a última que passo aqui na França, porque agora tá assim, contagem regressiva para voltar. Será um pouco complicado eu acho, pois terei que ir direto de Orléans até Amsterdã, passando por Paris, o que vai dar um pouco de trabalho, pedalar de uma estação a outra. O pior mesmo é desmontar a bike, mas vou fazer meio nas coxas, que nem a outra vez. Só mesmo quando for embarcar no avião é que terei que fazer direitinho, mas aí vale a pena.
Acordei, sem comer nada, entrevistei a família belga que viaja de bicicleta, porque vi que eles já estavam ensacando as coisas pra ir embora, seguir viagem. Falei com o chefe da família, o Sr. Serge Pecheur e a esposa dele, Sra. Marie-Helene Pecheur, ele médico, ela veterinária. Foram muitos simpáticos, falaram umas coisas interessantes e acho que isso vai acrescentar bastante no documentário. Uma família toda que viaja de bicicleta e ainda fica em campings.
Depois disso ainda lavei algumas roupas na máquina que tem no camping, o problema foi que eu não tinha nenhum produto, acabei jogando um sabonete líquido, um gel de banho mesmo, mas acho que o próprio calor e mexidas que deu na máquina já ajudou bastante na limpeza, pelo menos tirou aquele grosso. A toalha de banho já estava muito usada, porque nem no sol mais eu estava deixando. Aí começou a ficar complicado. Agora deixo a toalha na parte de cima, na bicicleta, pegando sol e ventilando um pouco. Está dando certo porque ela seca e fica nova denovo.
Tinha amanhecido um dia lindo, sol brilhando, nem deu vontade de ir embora, guardar as coisas, deu vontade de ficar ali apreciando um pouco mais tudo aquilo. Mas mal deu tempo de pensar isso e o tempo fechou. Aqui é assim, com esse tanto de vento que tem, as coisas mudam muito rápido, e se não estiver preparado, molha mesmo. E passa rápido, isso que é engraçado e problemático. Às vezes uns 20 minutos de chuva faz molhar tudo e depois o resto do dia fica sol e nublado. Mas já está tudo molhado.
Ao fundo o rio Loire
Depois de ter feito tudo isso, ainda fui ao centro da cidade, que bastava atravessar a ponte, procurar alguma padaria pra comer alguma coisa. Achei uma, comprei sanduíche e um pain au chocolat, estou gostando desse pain au chocolat, como todo dia. Quando tem o Maxi então, é uma maravilha. Comi na borda do Loire, observando o rio e o tempo. E pelo visto ia chover mesmo. Apesar disso era preciso ir. Achei que daria tempo de seguir um pouco pelo menos. E foi só um pouco mesmo. Subi um morrinho e logo veio a chuva. Parei num ponto de ônibus às 11h08 e esperei. Nem sabia ao certo se era por lá mesmo o caminho, mas tudo levava a crer que sim, porque me perdi um pouco pra sair da cidade, como já está de costume. As indicações às vezes são um pouco complicadas, mas vamos que vamos. Pelo menos eu já tinha comido, e não faria tantos quilômetros hoje, além do que creio que o percurso não é dos piores. Ruim estava só o tempo mesmo, caiu uma aguaceira tremenda, parecia que ficaria o dia todo assim, pra qualquer lado que eu olhasse estava tudo fechado. E eu lá, no ponto de ônibus sentado, esperando. Uma senhora chegou, ficou 1 minuto, abriu o guarda-chuva e continuou. Depois um casal de jovens do outro lado da rua sentou um pouco e continuaram na chuva mesmo. E os carros passando, o tempo passando. Começou de leve e depois choveu muito mesmo, ainda bem que fiquei lá, se não seria outro desastre, isso que as coisas nem estavam bem secas ainda. Não poderia molhar tudo novamente, ainda mais com tantos papéis e coisas eletrônicas. Eu colocava uns plásticos, mas isso não adiantava muito, por causa do vento e da água que respingava de baixo pra cima.
Poucos dias aqui na França e, no Loire mais especificamente, e já estou me habituando ao esquema das chuvas. Basta sentir o vento de onde vem, se for de lado onde estão as nuvens carregadas, o que normalmente acontece, é porque vem chuva e é bom procurar abrigo se não quiser se molhar, porque o vento faz molhar tudo, mesmo com guarda-chuva, isso se ele não desmontar. E eu ainda esperando passar, dessa vez parecia que ela veio com vontade mesmo de molhar. Fiquei até às 11h45 sentado esperando e observando o movimento, foi a hora em que tudo parecia ter entrado na maior das calmarias, o vento continuava, mas a chuva já tinha passado. Resolvi ir, com alguns plásticos por cima, os mapas ensacados também, porque ainda sobra a água da pista que levanta ao andar e quando os carros passam, então é bom proteger. E realmente deu certo, tudo chegou seco e salvo em Azay-le-Rideau, onde começou a cair uns pingos novamente. Aproveitei a parada de abrigo da chuva pra comer umas batatas e mal tinha acabado o sol voltou com força total.
Gare de Tours
Tirei foto do castelo e continuei, não quis ficar muito aí, porque tenho muita coisa pra ver ainda e muito chão pra andar. E dependendo do clima, pode ser que os meus planos vão por água abaixo, literalmente.
A próxima cidade foi Villandry, pedalei à toa, porque o castelo fica escondido atrás de uns verdes, não dava pra ver nada. Dei um pulo e bati uma foto, mas ficou meio tosca e tremida, vou tentar pegar de algum catálogo ou internet mesmo, só pra ilustrar. E pra completar, começou a chover novamente. Hoje tava um dia complicado, chovia e parava a toda hora. O problema é que eu já estava a caminho da outra cidade, então tive que procurar qualquer lugar na rodovia mesmo pra me abrigar, ainda bem que achei uma passarela e fiquei lá mesmo. Sem muito conforto, de pé, com a bike querendo cair a toda hora, porque era meio inclinado, coloquei uma pedra na pneu e segurou. Aí veio outro problema, eu precisava ir no banheiro e ali não tinha como fazer. Ficava muito na beirada da rodovia e não tinha nenhum cantinho, e a chuva não passava, vinha o vento frio, eu ainda comi e bebi mais, tava complicado, mas segurei firme e forte. Acho que fiquei uns 20 minutos ali debaixo esperando em pé e querendo ir ao banheiro. Logo mais a frente pude realizar o meu desejo e seguir mais tranqüilo e mais leve até Tours.
Os quilômetros rendem muito no Vale do Loire, porque é muito plaino e não tem muito vento contra, dava pra pedalar a mais de 20km/h, às vezes 30km/h sem esforço, isso faz render muito, ainda com a paisagem linda, passa muito rápido, quando eu via, já tinha feito mais 10km. Em relação a outros percursos que eu fazia média de 10km/h ou menos, esse aqui era perfeito. Acho que por isso tem tanto ciclista, ciclo turista e roteiro para bicicletas aqui no Vale do Loire, tem roteiros específicos para seguir o rio, ver os castelo, andar pelas matas, é só escolher.
Em Tours, aproveitei pra sacar mais dinheiro. Fiz algumas compras ao longo do dia, no jantar até esbanjei e comprei um vinho meia garrafa de Saumur Champigny pra beber e cair de novo. Ainda mais depois por tudo que passei nesse dia, de tanto chuva que tive que desviar, esperar, isso foi me deixando estressado, sem saber se daria certo pra chegar até onde planejei. A quilometragem parece muita, mas foi bem tranqüila de ser feita, tanto que os 77,48km eu fiz em 4h08. E somando os gastos de café-da-manhã 3,75€, umas compras 3,19€, camping 5,5€ e mais compras pro jantar 8,87€ foi bem na média.
Ao todo gastei 21,31€, acho que tá bom levando em conta tudo o que comprei.