Relatos de viagens ciclísticas.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Décimo sexto dia: Fontenay-le-Comte (07/08)

Tomei café olhando alguns mastros de veleiros ancorados ali perto, era tudo muito lindo ao amanhecer, enquanto as pessoas ainda estavam dormindo. Gostei do barco, gigante, chamado Amigo, acho que é de um holandês. É nessas horas que eu gostaria de um Amigo.
Trocadilho feito, é hora de pegar estrada. Mas as indicações são para carros, e carros pegam a autoroute. Voltei ao escritório de turismo e pedi um mapa dos caminhos para se fazer de bicicleta. Foi um ajuda e tanto. Encontrei um outro ciclo turista, numa Giant modelo estrada, e perguntei pra onde ele ia e tal, ele disse que estava procurando o albergue, então dei mais ou menos as informações para ele, mas para variar, teve que ser em inglês, porque ele não falava quase nada em francês. Achei que eu fosse praticar mais um pouco, não deu certo.
E eu segui o mapa, mais ou menos, porque parecia tão simples olhando, e quando chega em certas encruzilhadas tudo fica diferente e eu me perco. Mas vou me guiando pelo sol enquanto não dá meio dia, porque aí fica complicado.
Em certo momento vi que eu iria para a autoroute, parei, fiquei olhando o mapa e de repente um senhor de bicicleta veio me ajudar. Eu disse que estava indo para Marans, que é caminho para Fontenay-le-Comte, então ele disse para eu segui-lo alguns metros. Em certo momento ele parou e deu as instruções para eu continuar. Acho que ele morava ali perto mesmo, porque sabia bem o caminho, as curvas, subidas e descidas. Fui até certo ponto pelas instruções dele e pelo mapinha também, apesar de que o mapa ser meio ruim pra mim que iria tão longe, ele não era tão abrangente.
Nessas estradas secundárias o problema é a falta de sinalização, ou melhor, a pouca sinalização. Porque para quem está de carro ou sabe bem pra onde vai, é bem tranqüilo, mas para quem está de bicicleta, uma placa a cada 3km é muita distância. Mas a estradinha era boa, com bastante sombra e como ainda era relativamente cedo o clima tava bom pra pedalar. E o vento sempre acompanhando também. Fiz um ritmo bom de pedalada até chegar a Marans. Lá eu deveria pegar um trecho da N137 e depois seguir na D938 até Fontenay, mas não sei se foi o moinho de vento que parei pra tirar uma foto ou o Porsche que eu vi, mas um dos dois me distraiu e eu passe reto da entrada. Sei que pedalei uns 10km por uma estradinha sem sombra, com vento e só plantação e pasto dos dois lados. Aquele cheirinho do campo, uma beleza, principalmente do pasto. Já era meio dia e pouco, minha água tava pra acabar, eu não sabia se estava indo certo, pelo que vi no mapa eu estava indo no sentido contrário e teria que dar uma enorme volta pra chegar ao meu destino. Parei numa dessas fazendas que oferecem hospedagem, as chamadas Chambres D'Hôtes, pedi água e informação. A dona foi muito atenciosa, encheu minha garrafa fiel e trouxe um mapa pra eu ver. Pedi para anotar as cidades que eu deveria seguir, ela escreveu tudo certinho e até ofereceu o mapa pra eu levar (mais um pra carregar, por isso nem aceitei) e perguntou se eu precisava de mais alguma coisa. Disse que estava bom já, que ajudou muito e segui viagem, mais uns 25km. Vou andar mais, mas pelo menos ela me disse que dali pra frente a estrada teria mais sombras, o que torna bem mais agradável pra quem vai de bicicleta.
Cheguei em Fontenay-le-Compte mais ou menos 14h30, depois de 73,63km em 4h16 de pedalada, fui direto pro escritório de turismo da cidade, peguei o mapa e fui pro albergue.
Chegando lá vi que não era apenas um albergue, mesmo porque essa cidade não é lá muito turística para jovens, era também um lugar de reabilitação ou alguma coisa do gênero para jovens. Entrei pra dar uma olhada geral no local, vi uma máquina de refrigerante, vi o preço, 0,80€ a Coca-Light, não pensei duas vezes e peguei uma. Desceu que foi uma beleza, naquele calor, depois de pedalar tanto, foi muito bom, muito refrescante. Fui ver se tinha lugar pra mim. A moça que me atendeu foi muito atenciosa, me explicou tudo, me mostrou onde era o quarto, onde era o café-da-manhã, como fazia pra abrir a porta depois das 22h com o cartão, porque tudo fica trancado. Fiz um tour pelo lugar com ela me explicando tudo detalhadamente, foi muito legal. Sem contar que o meu quarto aqui é de rei. É uma suite, uma caminha só pra mim, com banheiro completo só pra mim, tudo isso por 16,25€ com café-da-manhã, porque se não são 3€ a menos. Mas eu acho difícil comer tanto e tão variado por 3 ou menos. Um pãozinho com café já dá isso.
Fiquei um pouco no quarto, pra arrumar as coisas e descansar. Depois saí a fim de conhecer um pouco da cidade, mas eu estava realmente muito cansado, precisava parar um pouco, mesmo assim fui até os correios porque achei que fechasse às 17h, mas ainda bem que fecha só às 17h30. Comprei o cartão telefônico por 7,5€ e tenho 53 minutos de ligação para o Brasil. Pude ligar pra casa e falar durante um bom tempo, depois liguei para o meu amore, mas ela não estava em casa no momento, tudo por causa do carro, agora ela não pára mais. Passei no mercado MonoPrix, comprei macarrão, molho pronto Napolitano, queijo Emmental, linguíça, uma garrafa de vinho 75cl de Bordeaux, Château La Grange de 2005 e dessa vez sal. Tudo isso por 8,43€, acho que vale a pena porque não iria comer tanto e tão bem, do jeito que eu gosto e ainda beber vinho por esse preço.
Ainda bem que parei o meu tour e comprei as coisas, porque o mercado também não ficaria mais muito tempo aberto. Cidades pequenas, tem que tomar cuidado. E chegando na cozinha do albergue, me deparo com a falta de tudo. Fui na recepção, não tinha ninguém, fui direto na cozinha, falei com a mulher e fui pedindo as coisas, ela me trazia e eu dizia se era ou não, mas o resto eu lembrei os nomes certinhos. Com tudo em mãos voltei pra cozinha, mas aí o fogão não ligava. Dessa vez o cara estava na recepção e foi lá ligar a chave central que estava desligada, acho que pra evitar dos loucos usarem e se machucarem aqui, porque tem muita gente com cara de louco.
Bom, finalmente pude começar a cozinhar. Demorou até esquentar a água, mas não foi problema, porque eu já fui tomando o vinho e cortando as lingüiças e piquei o queijo também, algumas fatias, outras comi, outras guardei pra amanhã.
Cozinhei o macarrão e coloquei no prato. Na mesma panela, a única que eu tinha, fritei as lingüiças direto, na raça, no próprio óleo delas, porque eu não tinha outro mesmo, apesar de ter visto plantação de girassol o trajeto todo. Deixei fritar bem, então joguei o molho pronto e sal, claro. Dessa vez tinha que ter sal. Joguei o queijo Emmental picado e misturei bem. Deixei só o queijo derreter e virar aquela massa toda e joguei a massa do macarrão de volta, junto ao molho power special. Misturei bem, tudo esquentou e derreteu como deveria. Fiz tanta comida que dividi em duas prestações, enchi o prato e comi, depois enchi novamente e comi. O vinho de Bordeaux estava muito bom. Só sei que devo ter reposto todas energias e mais um pouco do que gastei hoje pedalando, foi muito bom.
Depois dessa orgia gastronômica fui ligar para o meu amore, porque aqui eram quase 21h e lá quase 16h, a sogrinha disse que ela chegaria umas 15h30. Deu certo, ela mesmo que atendeu, acho que já esperava a ligação. Falamos durante uns 15 minutos, e salvem o cartão dos correios (La Poste). Demos os parabéns, porque hoje, dia 7, faz um ano e três meses de namoro oficial. Amei ter falado com o meu amore sem pressa, falar de tudo, da saudade, das novidades, que estaremos juntos em breve, que seria maravilhoso podermos viajar juntos pra Europa, almoçar em algum parque, tudo isso é muito bom.
Como eu estava realmente cansado e pensando em ficar um dia inteiro aqui só pra poder usufruir do meu quarto particular, do sossego da cidade e da internet de graça que descobri ter aqui, além do preço bom da estadia, voltei ao albergue pra dormir, estava realmente muito cansado. Ainda mais que depois daqui, não poderei mais parar em lugar algum, será cada dia numa cidade diferente e vamos que vamos.