Relatos de viagens ciclísticas.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Vigésimo quinto dia (16/08): rumo ao Loire

Le Mans
Hoje foi um dia foda, deu um monte de coisa errado, mas no final foi bom. Afinal, alguma coisa tinha que compensar.
Saí do camping às 9h20, um horário bom, relativamente cedo pela média dos últimos dias. Segui pela D304 rumo a Conlie, com 13km rodados em 40 minutos, parei pra comer alguma coisa. Achei uma boulangerie/patisserie e comprei um quiche e um folhado de maçã por 2,10€ os dois. Já eram 10h40 quando continuei até La Milesse onde mudei o caminho até a pequena cidade de La Chapelle-Saint-Aubin. Na verdade todas cidades pelas quais passei eram muito pequenas, então é até redundante falar isso, mas é bom pra reforçar a idéia.
Dessa última cidade cheguei direto a Le Mans, faz divisa. Às 11h57 cheguei na cidade depois de 35,18km apenas e em 1h58. Procurei logo o centro e o Office de Turisme, mas tava difícil achar, pois as placas eram meio confusas, chegavam num ponto e mudavam as informações, então não sabia que direção pegar. Fui olhando nos pontos de ônibus que direção pegar, porque era mais fácil. Até que finalmente consegui chegar, mas nisso já havia passado um tempo precioso.
Aproveitei pra sacar o dinheiro. Achei o caixa, tentei tirar 400€ não deu, diminuí pra 390€, depois 380€. Acabei tirando só 160€. Mas para os próximos dias dá e sobra, eu acho. Quando eu estiver mais perto ou em Orléans eu saco mais, ou a mesma quantidade ou um pouco mais, se der. Porque irei precisar basicamente pra comprar a passagem de trem, no mais é camping e comida.
Em Le Mans almoçei, gastei 5€. Descansei um pouco, filmei a catedral e algumas partes do quai, a parte mais bonita da cidade, porque o resto eu achei muito feio e sujo, com muito lixo jogado nas ruas, tudo meio abandonado. Não gostei da cidade não. Então resolvi ir até o circuito, afinal, a cidade é famosa por isso, pelos carros e corridas. Inclusive tem representação de várias marcas de carros, até bem próximas umas das outras.
O problema é que essa pista fica muito longe pra ir de bike, mas já que eu estava lá, não custa ir mais próximo. Rodei uns 16km até chegar nessa bendita pista. Peguei umas imagens e tive que voltar, porque a minha entrada ficava há 16km da pista. Se eu tivesse de carro teria sido mais perto, mas o caminho levaria a uma autoroute ou por uma national grande. De bike nem rola. Só sei que rodei muito na cidade, não vi quase nada e perdi tempo.
A grande questão agora era saber até onde eu iria conseguir chegar. Porque a hora já estava avançada e eu não encontrava a saída exata. Resolvi ir por um caminho, parei num supermercado pra me abastecer com algumas coisas. Dessa vez eu esbanjei, porque era muito barato tudo por lá. Comprei vinho, shampoo, sandudiches (3), Pringles, chocolate e gastei apenas 9,83€, foi muito bom isso, porque iria me sustentar na viagem, no jantar e café da manhã.
Perguntei no mercado qual era o caminho, a moça indicou, mas quando cheguei lá era uma rua sem saída. Pode ser que eu tenha entendido errado, vai saber. Tinha uns caras que instalam placas em rodovias, fui perguntar a eles. A minha sorte é que eles tinham um mapa, então anotei os nomes das cidades que eu deveria seguir até retomar a rodovia que eu queria. Cheguei na última cidade que eu havia marcado, mas não tinha camping, ou melhor, ter até tinha e de graça, mas o chuveiro não funcionava. Então olhei no mapa de campings que peguei em Le Mans e segui mais 14km até uma cidade onde teria camping, bom, e era no caminho. E foi muito bom mesmo. Camping 3 estrelas e preço super bacana. Paguei 7,70€ porque pedi tomada elétrica que acabei nem usando tanto assim, nem sei porque pedi. Sem a tomada custaria 5,60€, muito bom para o nível do camping. Sem contar que eu já havia rodado 121km em 6h50 e já passam das 19h. Era hora de ficar em algum lugar mesmo.
Le Mans
Armei a barraca, arrumei tudo, coloquei as bagagens pra dentro, tomei banho porque era muito necessário e jantei, também muito necessário. Comi muito e bebi vinho. Só sei que capotei depois disso. Levantei umas horas mais tarde, escovei os dentes e até ia fazer mais alguma coisa, ver os campings no guia que a moça me emprestou, ver o roteiro, as cidades, mas eu estava muito cansado, foi um dia que me deixou muito estressado porque andei muito e não saí do lugar. Isso é muito ruim.
Mas apesar de tudo consegui dar uma boa adiantada nas coisas, digo, no percurso, porque finalmente cheguei na região do Loire. Tanto que o camping fica na beira do rio, o nome dele já diz tudo Au Board du Loire. A dona era muito atenciosa, o clima do lugar muito bom e eu dormi, dormi muito.

Vigésimo quarto dia (15/08): rumo ao incerto

Ernée faz parte da rota do Tour de France
Depois do telefonema de ontem, da noite mal dormida e da incerteza até onde ir pra que eu consiga ver os principais castelos do Loire, acordei numa manhã fria, com névoa por tudo e a barraca um pouco molhada. Isso já está virando uma constante. Mas enfim, esperei mais um pouco, até umas 8h, mas nada de aparecer o sol. Ainda estava aquele tempo fechado e frio. Pensei: não posso ficar aqui o dia todo, tenho um longo caminho a percorrer e nem sei se tem muita subida, como que serão as coisas. Passei um papel pra tirar um pouco da água de cima da barraca e guardei assim mesmo. Guardei o resto das coisas, amarrei tudo na bike e segui no frio de Fougères às 9h40. Via vários ciclistas que passavam por mim ou vinham na outra direção, todos cumprimentavam, era incrível isso, mais que o frio que fazia. Até que um veio e ficou ao meu lado. Começou a conversar, achando que eu era polonês, disse que tem um visinho que é polonês, depois disse que eu tinha bastante peso pra levar e assim foi indo a conversa. Num dado momento, numa subida de 2km, com o sol já aparecendo, ficou quente, parei pra tirar o casaco. Continuamos e ele sempre ao meu lado com a bike de estrada, sem fazer esforço e eu me matando nas subidas. Ficamos lado a lado por cerca de uma hora, até que resolvi parar pra descansar e comprar umas coisas pra comer num mercadinho que vi aberto em Larchamp.
Comprei um saquinho de pão de leite, vinham 10 pequenos, comprei um queijo de cabra muito bom, 1l de suco de abacaxi e um pacote daquelas bolachas power, gastei 5,39€. Tomei o suco e preparei os sanduíches.
Eu estava pedalando só pelas estradinhas que passam pelas fazendas, mas era meio ruim porque não tinha muita informação pra saber se eu estava certo. Segui até Ernée, tudo fechado, feriado. Só numa rua que tinha movimento, o pessoal tava fazendo uma festa. Vi uma oficina da Citroën aberta e pedi um pouco de óleo para a corrente. Acho que o óleo que ele colocou não era muito recomendável, mas era o que eu tinha, e de graça, feriado, foi perfeito. A bike já estava fazendo uns barulhos estranhos na corrente, porque pegou chuva e ficou no sereno, perdeu todo o óleo que tinha, sem contar que desde que tirei da loja, só andei. De qualquer forma ela ficou perfeita. Sem mais barulhos, estava rodando solta de novo, muito bom isso. Apesar da volta que dei, valeu a pena.
Dessa cidade segui mais 24km pela N12 até Mayenne, que dá nome a região. Parei mais um pouco, comi mais um pãozinho com queijo de cabra e continuei. Parei em Gracay e em Bais, onde enchi as garrafas de água no cemitério. Uma senhora vinha vindo e perguntei onde era a torneira, ela me indicou e perguntou algumas coisas, entre elas, se eu era francês. Devo estar falando bem mesmo.
No mais foi só pedal, estrada e pensar onde exatamente eu iria parar. Vi no mapa e nas placas que uma boa cidade seria Sillé-le-Guillaume, fica uns 35km de Le Mans, isso faz com que eu possa dar umas voltar e almoçar lá e ainda seguir mais uns 70km em direção a Saumur. Eu tinha pensando em ir um pouco mais adiante, até Conlie, mas o tempo começou a fechar, até caiu uns pingos, achei melhor parar por aqui mesmo, já eram 17h, já tinha feito 101,26km em 5h31, o que dá uma boa média, apesar das várias subidas que peguei, eram quilométricas. Por isso lembre-se, depois de toda descida tem sempre uma subida e vice-versa e, que dependendo o ponto de vista, uma subida pode ser uma descida. Isso é uma lição de vida.
Armei a barraca no camping de 6€, mas parecia bem ajeitado. Pingaram umas gotas, mas não chegou a chover, ainda bem. Comi uns biscoitos, tomei banho e aí o sol voltou até forte novamente. Bom pra secar as coisas. Estava com um pouco de fome, porque passei o dia com o que comprei no mercadinho e o resto de amendoim, ainda bem, porque no mais estava tudo fechado. Amanhã preciso comprar mais coisas e pegar dinheiro porque estou com vinte e poucos euros apenas. Depois zero. Fui, então, comer no bar do camping mesmo. Pedi um cheesburger com fritas, 5€. As fritas eram boas e tinha bastante, já o burger, era horrível. Feito no microondas, com a parte de baixo do pão junto, aí ficou seco, duro, uma torrada e o hambúrguer meio cru no meio, mas com fome, comi assim mesmo. Devia ter comido Nuggets, acho que seria melhor. Porque agora vou ficar pensando num cheesburguer melhor e vou ter que comer em algum lugar. Que nem a história do macarrão. Daqui a pouco vou querer comer feijão, mas ainda bem que já está no final e logo volto pra casa, comidinha da mamis e tudo mais.
Mas mesmo assim foi melhor do que tentar procurar algo aberto na cidade, que além de pequena, era feriado. Só ia pedalar mais, subida ainda.
E enquanto eu comia, deixei a câmera carregando a bateria de menor capacidade, porque a outra ainda está com uma boa carga, e assim creio que não terei problemas, só preciso ver onde irei recarregar o Pocket, acho que no banheiro, sempre tem uma tomada, pra quem quer usar aparelho de barbear. O problema é que terei que ficar lá esperando, mas tudo bem, qualquer coisa eu aproveito e uso lá mesmo pra escrever o diário.
No camping de Beauvoir tinha um menino ouvindo música num iPod na pia do banheiro, e aqui é melhor, porque são todas separadas, o problema é que tem que ficar apertando o botão da luz, se não apaga, parece uma coisa Lost, mas tranqüilo.
Pior que isso só o chuveiro mesmo, que não tinha o funcionamento como os outros, de apertar e sair água por um tempo. Aqui tem que puxar uma corrente. Enquanto puxa, sai água, pára de puxar, pára de sair água. Um maneta não toma banho sozinho. Sem contar que era duro o negócio, tinha que puxar com força mesmo. Foi um belo exercício.
Camping bizarro e comida ruim, mas foi o que encontrei. E como sempre digo, é apenas um dia. Então não tem problema, amanhã já estarei em outro lugar, e tudo vai ser diferente, talvez não melhor, mas diferente.
O bom é que aqui não é muito freqüentado, porque não é ponto turístico famoso, então tem só famílias mesmo. O problema são as crianças que gritam e ficam acordadas até tarde e levantam cedo com energia total. Acho que tem muitos alemães ou de outro país estranho, porque eles falam uma língua estranha.
Apesar dos pesares, hoje consegui um lugar bom, perto do banheiro, não preciso andar muito até chegar. Já tenho uns esquemas de levar a roupa numa sacola plástica pra não molhar no chuveiro, porque mesmo tendo proteção, sempre molha tudo. O que ainda falta aqui é um lugar pra poder plugar o Pocket, sentar, escrever e recarregar a bateria, como tem nos albergues, que pode ser feito no quarto mesmo ou no bar. Porque o bar do homem aqui é a cozinha e as mesas são todas fora. Internet então nem pensar. Outra coisa é que normalmente os campings ficam a uns 2 ou 3km do centro, pra quem está a pé é complicado, mas de bike ou carro é bem tranqüilo.
Meu único problema agora mesmo é quanto ao dinheiro. Até achei um caixa Visa hoje, mas estava fora de serviço, como no Mont Saint Michel. Espero encontrar amanhã, se não nem sei o que vou fazer. Usar cartão de crédito?! Mas não é todo lugar que aceita. Acho que em Le Mans ou mesmo na cidade aqui que estou irei conseguir sacar. No mais, faltam poucos dias e os castelos estão próximos. De acordo com os meus cálculos, se tudo ocorrer bem, poderei passar pela Bélgica, se não, direto a Amsterdã mesmo. Bom, agora vou esperar carregar um pouco o Pocket e ir dormir porque já passam das 21h, acho que as 22h é o horário bom pra ir dormir. Acordo cedo e bem descansado, com várias horas de sono. O saco de dormir até é bom. E esse contato com a natureza é fabuloso. Colocar o pé na grama, deitar no relevo do chão, sentindo a grama e as imperfeições do solo. Acordar e ver a grama, as árvores, é tudo muito lindo e mais barato.
Esse foi o meu dia, pedalei, pedalei e cheguei aqui, no meio do nada. Mas é bom pra poder me desligar um pouco das coisas, ficar em contato com a natureza, cheguei até a passar por várias florestas, uma tinha o Col (cume) de 258m, foi uma bela subida, de 2,5km, mas bem compensadora.

Vigésimo terceiro dia (14/08): rumo Fougères

Ao fundo o castelo de Fougères
Ainda estou me acostumando com a barraca e sou presenteado com uma bela chuva durante a noite. A barraca amanheceu molhada, mas até aí tudo bem, eu ia esperar um pouco, o sol ia secar rapidinho, o problema foi que não vinha o sol, vinha mais chuva. Tentei desmontar tudo antes que começasse a chover mais, mas a chuva foi mais rápida. E foi só pra molhar a barraca mesmo, porque mais uns 15 minutos depois parou e saiu sol. Guardei tudo e segui meu caminho. Mais uns 20 minutos e choveu. Aí sim a coisa ficou feia. Guardei os mapas e roupas que estavam fora pra secar, coloquei tudo em sacolas que já estavam estrategicamente posicionadas para isso, apesar de que pensei que não iria usar. É sempre bom estar prevenido. Pedalei por mais uma hora, sem ter onde parar, porque a estrada não tinha nem acostamento, nem ponto de ônibus, nada. Cheguei em Antrain, logo na entrada da cidade havia um banheiro público aparentemente recém construído, com telhado, era o que eu precisava. Parei lá, comi, fui ao banheiro e esperei mais um tempo, cerca de 40 minutos parado. Enquanto eu estava lá, param três carros, acho que pra almoçar também. Dois estavam juntos, outro parou sozinho, e era inglês, com o volante na direita, muito engraçado isso. Encontrei vários carros assim nessa região da França. Deve ser bem complicado pra eles se acostumarem, lembrarem que estão em outro sistema de trânsito e mesmo pra poder fazer uma ultrapassagem.
Enfim, como a minha jornada de hoje era relativamente curta, não me importei em ficar um tempo parado, esperando a chuva passar. Com tudo isso e os 46,88km rodados em 2h46 cheguei em Fougères mais ou menos às 14h30. Fui direto ao centro da cidade, encontrei uma padaria da rede La Mia Caline, comprei um pacote promoção, um salgado, uma sobremesa e uma bebida. O salgado foi um pão com batata e uns pedacinhos de lingüiça, de sobremesa um maxi pain au chocolat e pra beber Coca-Cola, normal mesmo, de garrafa, 50cl. A nossa é de 600ml!!! Tudo aqui é menor, latinha, garrafa, só o preço é maior mesmo. Mas logo volto ao padrão americano e mais barato.
Fui no Office de Turisme, que era bem perto ali no centro, pedi mapas e informações. Fui ao camping arrumar a barraca e deixar as coisas lá pra ficar mais leve. Custou 4,65€, muito bom o preço e o lugar. Banheiros bem mais organizados, limpos e até divididos pra homens e mulheres.
Antes de mais nada, procurei algum lugar aberto que tivesse computador pra usar, mas estava quase tudo fechado, inclusive as lan houses. Amanhã é feriado e muita gente já parou, até parece o Brasil. Voltei ao Office de Turisme e perguntei onde eu poderia usar um computador. Ela disse que estava tudo fechado mesmo e eles até tem computadores lá pra usar internet, mas não tem USB. Então ela deixou eu usar o computador do próprio escritório, o que foi uma ajuda e tanto pra mim. Pude liberar o cartão pra tirar fotos do Château de Fougères e ainda conferir o que havia no pendrive que achei na estrada. É apenas um clip de alguma banda. Quando chegar em casa eu vejo e deleto.
Fiz o tour pela cidade, vi a parte medieval, o castelo, as igrejas, tudo que era interessante de ser visto. Depois passei no La Poste, recarreguei o cartão com mais 7,5€ e liguei pro meu amore, mas ninguém atendeu. Depois liguei pra casa, falei com o pai. Ele atendeu porque o Evandro trabalha, a Leilane devia estar no estágio e a mãe tá expondo e vendendo os artesanatos no Santa Úrsula Shopping, só sobrou ele mesmo pra atender. Falamos até que por um bom tempo.
Depois fui tomar banho, me arrumar, arrumar as coisas para o dia seguinte, que roupa usar, roteiro, essas coisas. Vi que o caminho seria bem tranqüilo, seguindo a rua do camping e indo tout droit, como dizem aqui.
Voltei ao centro, era meio longe, certa de uns 3km, mas de bike eu ia rapidinho, apesar da subida. Dei mais umas voltas, peguei mais umas imagens e comi um Kebab. Gastei 4,5€ com fritas. Salvem os Kebabs, é muito bom isso, barato e alimenta bem. Sem contar que ele fica no centro, na rua do Office de Turisme, as construções lá são todas bem antigas, é ponto de referência turística aquela rua. Pude me alimentar bem, barato e ainda admirar a arquitetura do lugar.
Voltei ao camping, escovei os dentes e liguei para o meu amore. No início tava tudo bem a conversa, depois acho que ela estressou porque tava atrasada pra reunião, ficavam tocando a campainha e ninguém atendia, então ela descontou tudo em cima de mim. Disse que toda viagem eu não dou bola pra ela, eu esqueço, não mando notícias, essas coisas. Disse que eu não respondi os e-mails que ela mandou. Mas pra mim foi difícil, porque passei por cidades pequenas que não tem essas coisas e com esse feriado estava tudo fechado. Em St. Malo que deveria ter algum lugar aberto, dei apenas umas passada, fiquei cerca de uma hora e meia andando e filmando tudo por lá. Depois fiquei no meio do nada de novo. Foi por isso que resolvi recarregar o cartão e dar notícias, mas parece que ela não gostou muito, sei lá, acho que foi mesmo o estresse e saudade juntamente com os problemas que ela tem que enfrentar, tudo acabou caindo em cima de mim, como eu já disse. Só achei um pouco complicado isso, porque ela diz que quando viaja sempre encontra uma lanhouse e manda e-mail, em Londres ela preferiu mandar e-mail em vez de passear com os pais. Se eu estivesse em Londres, com certeza iria numa lanhouse, porque é bem mais fácil de se encontrar do que na zona rural da França e mais barato do que telefonar. Sem contar que, como ela mesma disse, e-mails podem ser lidos a qualquer hora, na hora que der, telefone tem que estar os dois na mesma hora disponíveis. Concordo com ela, mas realmente não encontrei onde usar computador com internet. Porque quando descobri o do Office de Turisme já tava na hora de fechar.
Bom, daqui pra frente vou apenas mandar e-mails pra ela, se eu conseguir. Se não ligo no dia 21 apenas. Porque depois de ter escutado tanto desaforo no telefone, fiquei traumatizado. Sei que ela é insegura e deve achar que estou sendo cobiçado e estou aprontando todas por aqui, mas não tem nada disso. Estou apenas pedalando o dia todo, vendo um pouco de cada cidade que passo, registro alguma coisa e depois ainda tenho que montar e desmontar tudo, todo dia, nessa rotina de férias. A única barraca que estou armando é a que uso para dormir.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Vigésimo segundo dia (13/08): St. Malo e Mont Saint Michel

Nas muralhas de St Malo
Domingão, mas pra mim tanto faz, porque tenho que pedalar mesmo.
Acordei, arrumei as coisas, comecei a desmontar a barraca e o Thierry veio ajudar. Eles foram muito prestativos o tempo todo, inclusive ela já havia me convidado a tomar café da manhã com eles.
Depois de tudo na bike, tomei o café que ela fez na hora, esquentou na panelinha, porque eles carregam um bujãozinho e panela. Ela me deu também uns biscoitos biológicos, como eles chamam os produtos naturais. Ambos os termos são estranhos se for analisar profundamente, mas o importante é que eles são mais saudáveis, ou deveriam ser.
Chegou a hora crítica, a despedida. Eles iriam ficar mais um dia no camping, pra conhecer a região. Mas eu tinha que seguir o meu caminho. Deu vontade de ficar mais, eles foram tão acolhedores, mas não tem jeito, tenho que ir. Anotei os nomes completos e e-mail. Os nomes pra colocar no documentário, já que peguei uma entrevista deles e o e-mail pra continuarmos nos falando. Ainda mais que eles estão programando uma viagem de bicicleta no caminho de Santiago de Compostela.
St. Malo estava perto. Fui seguindo as placas, indo pelas rodovias secundárias, cheguei rápido, pouco depois das 10h. Filmei o intramuros, andei um pouco por cima dele, dentro, dei umas voltas e peguei um mapa pra poder chegar ao Mont Saint Michel. Parecia perto, mas era longe. Dessa vez eu tinha o vento para me ajudar, pedalava sem problemas, velocidades entre 20 e 30km/h sem esforço.
Dava para ver o Mont Saint Michel há mais de 30km de distância. Parei numa cidade, que estava lotada, para almoçar. Comprei um sanduíche e uma barra de chocolate, gastei 4,40€. Sentei-me num desses locais que tem mesa e sombra, mas nem precisava, porque o tempo estava nublado direto. Sem contar o vento que soprava lá, tinha que segurar as coisas, se não saía voando mesmo, até o capacete com algumas coisas dentro saiu voando.
Continuei a caminhada, ou melhor, pedalava por mais uns 30km até um camping na cidade de Beauvoir, como a Anne havia me indicado. Apesar de eu ter ido em outro camping, não foi caro, 9,60€. Mas acho que o municipal deveria ser menos ainda. Bom, de qualquer forma aqui é legal, tem várias coisas, apesar de eu não usar nada, e tem café da manhã por 5€, de repente vale a pena. Só tive que comprar papel higiênico, mais 0,40€, porque nos campings não tem nos banheiros. E o banheiro era horrível lá, muito sujo e faltando as tampas nas privadas, mas era só um dia mesmo, então nem foi muito problema. Somando isso vai dar 15€ de hospedagem, mas acho que mesmo assim é bom ainda, porque não encontraria nada aqui perto por esse preço.
Finalmente fui ver o famoso Mont Saint Michel. Nunca vi tanta gente que queria ver a mesma coisa, na mesma hora e passando por uma estradinha apertada. A visão que se tem realmente é muito linda, uma coisa grandiosa e imponente. O problema eram as nuvens carregas que eu vi, mas o vento estava soprando em direção a elas, ou seja, provavelmente não vai chover.
Filmei, tirei foto, as últimas do cartão. Amanhã preciso, sem falta, achar um lugar que eu possa fazer a transferência, porque assim fico sem câmera. Mesmo assim deu pra tirar a foto que eu queria e filmei bastante, por fora, por dentro, por cima, ficaram bem legais as imagens. E tinha muita gente e muito carro, o trânsito horrível, parado. E chegava mais gente, era gente voltando, e assim o dia todo. Eu de bicicleta não tive problemas nesse trajeto.
Como eu estava cansado, voltei ao camping, tomei banho, comi alguma coisa que tinha na bagagem e telefonei pra Dona Neusa, fazia tempo que não dava notícias. O cartão já estava no fim, nem deu pra falar muito, mas acho que o básico deu pra falar. Depois ainda liguei rapidinho pra casa, avisando que está tudo bem e mandei um Feliz dia dos Pais. Mas nem deu um minuto e caiu a ligação. Amanhã vou recarregar e ligar para o meu amore. Uma pena ter acabado hoje, queria tanto ter ligado pra ela daqui, do Mont Saint Michel, mas de qualquer forma amanhã eu digo que passei por lá e pensei nela, como seria bom se eu também estivesse aqui quando ela veio. Seria perfeito ficar subindo e descendo as escadarias infinitas e se perder lá dentro.
O telefone fica ao lado do camping, voltei pra barraca, comecei a escrever o diário, comi mais um pouco e nem acabei de digitar caiu um pingo na tela. Que bosta. Fechei a barraca e deixei chover, ainda bem que tava de leve, mas o problema é que molha tudo, suja, sei lá, esse é o ponto negativo do camping e bike. Porque se está de carro ou num trailer, basta jogar as coisas lá dentro e pronto. Na hora de viajar fica protegido pela estrutura do veículo. Bom, eu escolhi fazer assim, agora tenho que agüentar as conseqüências de tudo que pode acontecer nesse tipo de viagem, com esse tipo de acomodação. Eu sempre quis fazer isso pra ver como que é, e realmente é fascinante, apesar dessas coisas que acontecem, só espero que amanhã o tempo amanheça bom, frio eu sei que estará, mas sem chuva, porque poderei continuar a viagem. Só fiquei pensando, e se chover amanhã, como vou guardar a barraca, como vou andar de bike, vai molhar tudo, que horror. Mas esperemos pra ver. Eu acho que o clima daqui pra frente vai melhorar quando for em direção ao Vale do Loire, lá parece ser mais quente, ou pelo menos, não com tanto vento.
E foi bem interessante sair de um camping pra outro, entrar na barraca e usar o Pocket, uma coisa meio antagônica como muitas que vi aqui na França, onde se tem um castelo de 500 anos e uma Mercedes zero na frente.
Hoje eu fiz uma boa quilometragem, 81,21km. Como tive o vento à favor, foi bem tranqüilo e gastei 5h05 pra fazer isso, sem contar que em muitos trechos eu empurrei a bike, pra ir apreciando melhor a paisagem, ou seja, o tempo roda e a quilometragem não. Mesmo assim foi uma boa diferença. Eu não me cansei, pelo menos em fazer esse trajeto como me cansei ontem, por exemplo. E a cada dia a velocidade média aumenta um pouco, hoje ela deu uma aumentada boa, mas fica em torno de 15km/h. Acho que é uma boa média para ciclo turismo.
Mont Saint Michel
Fiz tudo mais cedo hoje pra poder relaxar um pouco, traçar o roteiro que irei fazer, ver até onde acho que consigo chegar, colocar as coisas em ordem e curtir um pouco a barraca, ficar nela um tempinho, sem fazer nada mesmo, só deitado esperando o tempo passar e ouvindo as conversas ao redor em francês, inglês, alemão... E os carros que passam na avenida.

Vigésimo primeiro dia (12/08): Saí de Rennes

Esse era o caminho do canal que andei por um bom trecho até próximo a St. Malo
Dessa vez não coloquei rumo a lugar algum, porque realmente eu não tinha ao certo. Sabia que em St. Malo estava tudo lotado, teria que ficar em alguma cidade próxima, só não sabia em qual. Mas com a barraca e o saco de dormir fica tudo mais fácil, as possibilidades aumentam consideravelmente.
Acordei relativamente cedo, lá pelas 7h, mas até tomar café e arrumar as coisas, agora mais coisas para serem arrumadas, demorei mais que o normal e comecei a pegar estrada só as 9h. Tinha que saber o rumo certo a pegar de bike, porque no mapa havia somente a rodovia nacional e uma outra que acompanhava, então fui confirmar se era essa mesma e como faria pra seguir esse caminho. Não tive problemas, haviam várias placas pelo caminho indicando St. Malo e uma bicicleta ao lado. Era uma rota para bicicletas. Mas uma coisa não saía da minha cabeça, o que a moça me disse sobre o caminho ao longo do canal. Achei que poderia ser interessante, mesmo sendo mais longo o trajeto, mas sei lá, acabei indo pelo asfalto mesmo.
Parei numa cidadezinha, daquelas que não tem nada mais do que a rua principal, que é a própria rodovia secundária, a igreja, a padaria, o mercadinho, a tabacaria e jornais, e claro, a pracinha. Comprei um pão e a especialidade local feita artesanalmente, o pâté. Escolhi o Campagne, e realmente era muito bom. Pra eu gostar de pâté é porque é bom. E ele me sustentou durante um bom tempo de pedalada, de fato é saudável e energético. Gastei no almoço com essas coisas 2,68€.
Continuei seguindo as placas que mostravam o caminho pra chegar a St. Malo de bicicleta saindo de Rennes. Num dado momento perdi essa indicação e atravessei o tal canal. Perguntei pra um casal de ciclistas que estavam parados ali se eu chegaria seguindo esse canal por essa direção, eles confirmaram e lá fui eu.
Com isso o meu dia foi misto, teve de tudo. A começar pelo trajeto em rodovia, que é só asfalto e carro, de vez enquanto uma cidadezinha ou uma fazenda para ver. Quando fiz o trajeto seguindo o canal, a pedalada rendeu mais. Além de não ter subidas e descidas, não tinha vento. Então eu fazia média de 25km/h sem esforço mesmo com o chão de terra batida. Dava pra parar mais, descansar mais e curtir mais. Sombras e bancos ao longo do trajeto.
Passei por Dinan, filmei um pouco o castelo no alto do morro, filmei a ponte e a árvore caída no meio do caminho. Foi meio complicado passar por ela estando cheio de bagagens. E ainda nesse trajeto encontrei várias pessoas andando a pé, de bicicleta, de barco, caiaque, remo, tinha de tudo. Vários pescadores ao longo do trajeto também.
O problema agora era comida, tinha acabado, mas eu já estava chegando, apesar de ter dado voltas e voltas desviando as rodovias principais. Pensei em comprar na cidade onde eu fosse acampar, porque agora estou munido de barraca. Numa cidade antes de St. Malo resolvi ir até o centro pra comprar alguma coisa, foi quando encontrei um casal de ciclo turistas, vi eles pararem e perguntei se estavam perdidos também. Eles disseram que os campings em St. Malo estão todos lotados, nas cidades bem próximas é muito caro, coisa de 30, 40€ pro casal. Peguei o meu guia de campings da Bretagna e começamos a ver onde teria o mais próximo, foi em St. Suliac. Fica a uns 2 ou 3 km de onde estávamos. Seguimos até lá, porque já eram umas 18h e tínhamos que achar algum lugar aberto, normalmente os campings recebem as pessoas até as 19h. Deu tempo e tinha lugar para os 3. E como eram mais pessoas, saiu 5€ pra cada. Wow! Muita economia. Pelo menos comecei bem, além de pagar pouco, ficar perto de St. Malo, ainda conheci esse casal muito simpático.
Eles ficaram realmente felizes por eu ter dado a dica do camping, porque quando saímos pra jantar, eles pagaram um chopp pra mim e depois na hora de pagar a pizza ela nem quis os 50 centavos. Aproveitei e comprei umas coisas no mercadinho que ainda estava aberto, porque pelo jeito vou passar por cidades que não tem esse tipo de coisa, só restaurantes e coisas pra turistas.
Pegamos a pizza e fomos comer no camping. Cada um com sua faca, sentamos no chão e comemos acompanhado de vinho que eles compraram. Bebi um pouco também. Eles me adotaram por um dia, porque além disso tudo eles me ajudaram a montar a barraca, porque eu não sabia nem por onde começar. Foi perfeito, agora já sei como montar, então fica mais fácil. Até tentei ler as instruções, mas além de estarem em francês, claro, os desenhos e ilustrações eram horríveis, nem um pouco intuitivas.
Barraca arrumada, pizza comida, tudo certo pra ir dormir. Hoje fui um pouco mais tarde que o comum, já passavam das 23h, mas foi um dia e tanto, acho que hoje senti o verdadeiro espírito do ciclo turismo.
Primeiro dia da barraca armada
De Rennes a essa cidade que era um charme, fiz um zigue-zague bem grande, tanto que rodei 102,58km em 6h46 de pedalada, porque o vento contra realmente não ajuda em nada. Mas espero que o vento continue nessa direção pra me ajudar na descida até o Vale do Loire.
E quanto aos gastos, foram bem poucos também, os 2,86€ do almoço, 5€ do camping, 5€ da pizza e 8,05€ das compras, total de 20,91€, o que me deixa um pouco abaixo do esperado, sem cair a qualidade de algumas coisas como comida, banho e lugar aquecido pra dormir.