Relatos de viagens ciclísticas.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Décimo quinto dia: Rochefort e La Rochelle (06/08)


E aqui estamos na metade da viagem. Décimo quinto dia, muita saudade do que ficou e muita vontade de conhecer novas coisas ainda.
Acordei no hotel que mais parecia uma casa onde a dona recebia as pessoas pra se acomodar, porque só tinha casais de velhinhos e tudo era muito a cara da Mme. Bibard. Um casarão antigo com um terreno de uns 30 metros de frente no máximo, mas de profundidade devia ter uns 100 metros. No quintal um belo jardim, com muitas flores e uma horta que deve ser o passatempo dela quando não tem muitos hóspedes. Tinha uns brinquedos de criança, para os filhos dela ou de quem vier, não sei. Tudo meio jogado, meio bagunçado, mas ao mesmo tempo tudo limpinho. Tinha pistola d'água jogada na grama, cesta de basquete com as cores da bandeira da França, que são as mesmas dos EUA, então pode ser americano que parece francês. Assim como eu, que sempre sou confundido com alemão, inglês, ou qualquer outra nacionalidade européia, menos brasileira. Dependendo a região da França que estou as pessoas perguntam de que país eu sou, por exemplo, próximo a Strasbourg, perguntavam se eu era alemão. Em Bordeaux se eu era inglês. Ainda mais quando eu tentava falar alguma coisa e não saía direito, muitos já perguntavam se eu falava inglês, pra resolver logo as coisas. Mas o problema é que inglês eu sei menos ainda. No final das contas sempre consigo me comunicar. Com muita calma e paciência a gente chega lá.
E o hotel/casa da Mme. Bibard era realmente tudo muito caseiro. O café-da-manhã foi uma graça e uns dos melhores e mais completos que já tomei aqui na França, porque normalmente tem o suco, café, leite, chocolate e pra comer, pão, manteiga, algum doce e algum tipo de cereal também, e nada mais. Aqui teve croissant, finalmente comi croissant num lugar que dormi. Não era lá grande coisa, mas era o croissant. Só o café quando já é pronto, fica ruim, mas tomei assim mesmo por causa da cafeína. O melhor é onde tem a máquina que faz na hora, saí uma beleza e ainda pode-se escolher se quer café, capuccino, chocolate quente...
Como não tinha mais o que fazer na cidade e o tempo realmente voa, isso eu comprovo a cada dia que passa, paguei as minhas despesa. A maioria dos lugares paga quando chega. Depois desse café reforçado da Mme. Bibard desci as malas e até arrumar tudo e começar a pedalar já eram 9h50, demorei 2h09 pedalando durante 43,35km. Esse trecho foi bem tranqüilo, sem subidas fortes e vento contra. Tinha um pouco só, mas nada que prejudicasse muito o desempenho e a constância da viagem. Passei por cidades muito legais, várias, porque a cada 3 ou 4 km tinha uma, que era basicamente a mesma coisa: correio, padaria, bar, doceria, prefeitura, igreja e praça, variando uma ou outra coisa.
Em Rochefort não foi difícil achar a rua do albergue, o problema é que ele só abriria às 15h. Dei uma volta pela cidade, filmei alguma coisa, como a praça central, Hotel de Ville, a fábrica de cordas que é enorme, deveria ser o maior estaleiro da França, mas acho que não deu muito certo nisso. Haviam vários turistas, mas como é domingo, tudo fechado, somente os restaurantes e bares abertos.
Encontrei uma pizzaria aberta e fui comer lá mesmo, não era tão cara. Pedi uma pizza (6,00€) e uma Coca-Cola (1,70 €, meio cara, mas eu estava precisando), foi um almoço meio caro, mas foi bem fortificante.
Já havia almoçado, visto os principais pontos da cidade e ainda eram 14h. Decidi adiantar a viagem e seguir até La Rochelle. Daqui pra frente o caminho foi um pouco mais difícil, creio eu que por vários motivos, como o cansaço, calor e por estar meio perdido. Por vários quilômetros andei numa rodovia que eu acho que não poderia andar, mas não encontrava outro caminho pra fazer. Até que vi uma placa indicativa de um caminho pra se fazer de bicicleta até La Rochelle, o problema é que daria uns 10km a mais. Mas pelo menos era específico para ciclistas, tinha mais sombras e mais possibilidade de pedir água, sem contar que não terei carros e caminhões passando a 110km/h do meu lado.
Realmente tem coisas que só o cicloturismo pode proporcionar. Nesse caminho alternativo para bicicletas vi que eu daria uma grande volta, a princípio não entendi bem. Encontrei outros ciclistas passando pelo caminho, mas no sentido contrário, vi que eu estava indo certo. De repente, mais uma vez, vejo uma placa de rua interditada. A França está em reforma, toda cidade tem um desvio. Mas dessa vez não era por questão de obras, mas de festa. Era a cidade de Châtelaillon-Plage. Eu já havia pego muito sol na cabeça, estava preocupado em chegar a tempo em La Rochelle, mesmo tendo reservado o albergue porque a cidade é mais badalada, nem tinha me dado conta de que eu estava tão próximo do oceano Atlântico. Quando entrei nessa cidade, nessa rua interditada, vi uma grande feira, uma festa na cidade. Desci da bicicleta pra poder passar no meio do povo que lotava as ruas estreitas da cidade, tirei a câmera e filmei um pouco de uma apresentação que estava acontecendo num palco. Olho para o lado e vejo muita água, aí me dou conta de que estou vendo o oceano. Continuo caminhando e de repente vejo a praia, afinal de contas, está no nome da cidade. Estava lotada a pequena faixa de areia e haviam muitos barcos mais adiante. Filmei um pouco da praia, tirei uma foto da bike com o oceano ao fundo. Continuei andando e ouço um ronco, era um Porsche, antigo, mas um Porsche. Ao lado, uma Ferrari, anos 60 ou 70, acho que mais pra 70, linda, era atração aos olhos de muitos que passavam. Porque carros assim, serão sempre desejados, mesmo que tenham 40 anos.
Mas eu tinha que chegar em La Rochelle. Continuei seguindo as placas do trajeto para ciclistas, passei por uma avenida muito arborizada e cheia de carros, tanto estacionados quanto andando. Eu estava com a câmera fotográfica na mão quando um carro invadiu a faixa de ciclista, fui subir na calçada, mas a roda dianteira não foi, por causa do peso da bolsa de guidão e a bike caiu. Ainda bem que só sujou um pouco. Levando-se em conta o tanto que já andei, isso não foi nada, ainda bem.
De repente perdi as indicações do caminho de bike, quando vi eu estava na tal de N137 que eu já havia andado, mas dessa vez ela estava maior, mais movimentada e tinha também a inscrição E602. Acho que não era muito apropriada para ciclistas, mas eu não encontrava outro caminho. Porque eles não fazem nenhum tipo de saída (ou entrada) justamente para os ciclistas que estiverem no trajeto próprio não entrem na rodovia, mas o problema é que eu queria sair e não teve jeito. Fui seguindo e só alguns motoristas que passavam gritavam alguma coisa ou buzinavam, não sei se era pra cumprimentar ou pra dizer que eu não poderia estar ali mesmo. Agora eu já estava próximo, fui seguindo as indicações, fui até o centro da cidade, mas foi um erro, porque domingo nada funciona. Tive que ir até a estação da cidade pra tentar pegar um mapa, mas só havia o mapa grande colocado na parede. Procurei onde era a rua do albergue e ainda bem que era próximo. Vi mais ou menos a direção e as avenidas que eu deveria pegar até chegar e fui. Mas o problema é que quando a gente chega lá no local, tudo muda. Perguntei pra um cara onde ficava o Minimes, era próximo mesmo. Mas como eu estava no meio de uma feira, fiquei mais um pouco ali. Era no porto velho, onde tem as torres. Encontrei uma brasileira perdida vendendo colares e esse tipo de coisa feita de coco.
Segui até o albergue, umas pessoas estranhas lá, mas tudo bem, não iria ficar muito. Minha reserva ainda estava certa, paguei os 16,90 e fui levar as coisas para o quarto, onde havia mais 5 pessoas. No quarto tem uns armários e a pia, o resto fica no banheiro comunitário.
Voltei ao agito, peguei mais umas imagens, pelo que vi o que rola é ali perto desse porto mesmo, filmei o Aquarium, um museu que fica num navio e resolvi comprar umas coisas pra comer. Foi bem na hora, porque em muitos lugares já não havia mais nada ou estava fechando. Muita gente lá, muita gente mesmo. Praia bomba no verão em qualquer lugar do mundo. Entrei num mercadinho, peguei um sanduíche desses prontos de Poulet Rôti Crudités (550kcal), um saquinho de amendoim (634kcal) e uns biscoitos com cobertura de chocolate, muito bom (550kcal), tudo isso por 6€. Eu precisava de energia depois de ter pedalado 116,82km em 7h06, e isso era o que mais tinha energia pelo menor preço no momento, tinha McDonald's também, mas não posso comer tanto assim, ainda mais na França, isso eu como quando voltar ao Brasil, sem contar que aqui eu não achei muito bom. Talvez por ter coisas muito melhores pra experimentar. Como esse mercadinho não fornecia sacolas plásticas, me sentei logo ao lado dele e comi, ali mesmo. Cheguei na cidade um pouco antes das 18h, demorei uns minutos até encontrar o albergue e me estabelecer lá, dei uma volta e quando vi já eram 20h, hora de fechar tudo. Nem havia acabado de comer e o mercadinho fechou. Quase que fico sem comer, ou teria que gastar muito mais pra comer outra coisa. Assim meus gastos foram dentro do previsto, 30,70€.