Relatos de viagens ciclísticas.

domingo, setembro 03, 2006

Décimo primeiro dia (02/08/2006): Lyon


Já se foi um terço da viagem, mas pelo menos consegui falar com o meu amore pela internet. Estou realmente com muita saudade dela, só que ainda terei muito caminho pela frente, e isso que ao mesmo tempo é bom, é triste, mas prefiro pensar mais na parte boa, que é a viagem e a possibilidade de conhecer coisas novas. Porque se eu ficar pensando somente na distância, saudade e tudo que deixei pra realizar essa viagem, não irei aproveitar nada, e isso eu acho que é pior ainda.
Bom, acordei, levantei, tracei o roteiro de visita em Lyon, anotei num papel, peguei o mapa de ônibus e metrô e saí por aí.

Comecei pelo que era mais perto, mas não mais fácil. Depois do café da manhã, bem generoso e bom, encarei uma subida de 2km. Não qualquer subida, mas uma subida como a que faço pra chegar ao albergue, mas essa tem apenas 400m. Ou seja, ainda bem que o café da manhã foi bom, porque suei bastante pra chegar até a Basílica. Se bem que chegando lá, tudo foi recompensado pela bela vista que se tem da cidade. Por ser mais alto que o albergue, tem-se uma vista ainda melhor e mais ampla. E a igreja por si só é bem bonita também. Passei no caminho das rosas, vi a torre de ferro (uma torre Eiffel menor), passei num caminho alternativo e por uma ponte que dava uma visão boa da cidade do outro lado. Procurei o museu e os anfiteatros, mas tava um saco lá por causa de um tal de festival. Vi o portão aberto, entrei, mas depois de um tempo veio uma moça com cara de quem não dormiu direito dizendo que eu não poderia estar com a bike lá. Não tinha aviso nenhum aviso e acho que o guarda tinha ido ao banheiro, porque ninguém me barrou. Filmei mais ou menos o que deu, mas não cheguei a ver bem, principalmente o anfiteatro maior. Aí no museu também não podia entrar por causa disso, porque fica tudo junto lá. Então foi viagem perdida. Uma pena, porque acho que deveria ser um museu bem interessante. Mas tudo bem, tem outras coisas pra se ver na cidade. Desci o morro, e continuei o roteiro. Filmei outra igreja que tem no pé do morro, filmei as ruas antigas da Vieux Lyon e alguns lugares interessantes que ficam por ali, como um ateliê de tecidos, o museu da miniatura, nesse entrei só um pouco, peguei umas imagens e fui embora, porque eu queria mesmo era ver o museu dos irmãos Lumière, e não tinha nem tanto tempo nem tanto dinheiro. De qualquer forma deu pra se ter uma noção boa da coisa.
Fui filmando algumas coisas pelo caminho como o rio Sahone e umas praças. Parei no McDonald's denovo pra ver se o meu amore tinha lido o meu e-mail e se, principalmente, ela tinha marcado alguma hora como eu havia pedido pra que pudéssemos teclar um pouco. E deu certo. Já era quase meio dia quando vi e ela ia entrar às 8h no Brasil, ou seja, na França seriam 13h, tava quase na hora. Parei na praça Bellecour, comi o resto do pão de ontem com outros restos, esperei mais um pouco e fui na lanchonete me conectar novamente. Sentei-me à uma mesa, liguei o Pocket, ainda faltavam uns 10 minutos, e quando deu 13h em ponto ela entrou. Foi muito bom poder teclar com ela por quase uma hora, apesar de que quando fui gravar a conversa num texto do Word, o Pocket deu pau, não saía do lugar, acho que esquentou muito, muita coisa aberta, muita atividade e ainda recarregando a bateria, esquentou demais. De qualquer forma terei bons trechos dessa conversa gravados em minha memória.
Ela estava com o dia lotado de coisas a fazer, então tivemos que desconectar pra cada um continuar seu rumo.
Fui até o museu dos irmãos Lumière, e foi uma surpresa pra mim. Porque lá foi onde morou Antoine Lumière, tem o quarto dele, as coisas dele, tudo muito interessante isso. Além de poder ver as invenções deles, a evolução dos equipamentos, é onde foram pensadas, na própria casa dele. Só isso já valeria uma visita, sem contar que o lugar é muito lindo. Vi o museu todo, dei umas voltas, filmei tudo por lá, inclusive umas crianças cantando no jardim.
Fui até o famoso parque Tête D'Or, o maior da cidade, conforme haviam me indicado a cantora e o namorado dela. E realmente é muito lindo lá e tem de tudo. Cultivo de plantas, animais, muito verde, pessoas nos gramados comendo, deitado, sem fazer nada, muito bom isso. Aproveitei pra beber mais água da boca do leão (a torneira era uma cabeça de leão), enchi a garrafa e dei mais umas voltinhas no parque pra pegar mais imagens.
Depois filmei mais um pouco da cidade, inclusive o grande Rhône, que afinal de contas dá nome à região. Eu estava morrendo de fome, porque havia acabado a comida e tava tudo no albergue o resto. Parei no Petit Casino (é uma rede de supermercado), comprei algumas coisas pra comer na hora e comprei macarrão também porque eu tava com muita vontade de comer. Mas a cozinha no albergue a noite fica lotada, aí desisti. Comi umas bruschettas com queijo brie, Pringles e salsichas enlatada. Até que foi uma boa combinação, talvez por não ter outra. Mas quem sabe amanhã como o macarrão. Pelo menos o resto das bruschettas com brie irei comer, ou na viagem ou no almoço, quando chegar em Bordeaux.
O importante disso tudo é saber que posso tomar minhas próprias decisões quanto ao que fazer, quando fazer e como fazer. Porque tudo é uma questão de escolhas, como já dizia Sartre, o homem é condenado a ser livre.

Tanto que quando fui comprar a passagem pra amanhã, a moça disse que eu não poderia levar a bike montada no trem, então eu quis mudar o roteiro, ir pra Nice ou Marseille mesmo, mas depois desencanei e resolvi fazer o que já havia pensando, andar de bike. Porque se não, depois teria que pegar mais um trem pelo menos. E eu não agüento mais ficar pegando trem, mesmo tendo um certo incentivo pra levar a bike é meio complicado quando se tem um monte de bagagens e outra, quero ter a experiência de ir só de bike por um longo trecho durante dias. Afinal de contas era mais ou menos isso que eu queria fazer desde o princípio. O problema é que eu queria passar por vários lugares, e pra fazer isso nesse período de tempo, só de trem mesmo. Mas agora que irei pra região mais famosa e que produz os melhores vinhos do mundo, não me importarei em me perder um pouco no meio desses vinhedos.
Quanto a Lyon, gostei muito da cidade, apesar da subida que tive que enfrentar algumas vezes, mas foi bom pra aquecer e fortalecer as pernas.
O grande problema é que terei que arrumar tudo e dormir cedo e, acima de tudo, colocar despertador pra acordar bem cedo, sair no escuro e pegar o trem que sai às 6h51, mas acho que é a melhor opção, mesmo tendo que fazer baldeação, ou como se diz por aqui, correspondence.