Relatos de viagens ciclísticas.

domingo, setembro 24, 2006

Vigésimo nono dia (20/08): rumo Orléans


E aqui chego no meu último dia na França, amanhã parto para Amsterdã, Holanda. Mas foi uma viagem muito boa pra mim, estava pensando nisso nesses últimos dias, tudo o que passei, tudo o que vivenciei, vi, senti, as pessoas que conheci, as trocas de experiências, tudo isso me ajudou de alguma forma, foi tudo muito bom, muito válido.
Levantei hoje lá pelas 7h novamente, como de costume, depois de ter chovido à noite, como de costume também, arrumei as coisas molhadas e sujas de grama como de costume, mas dessa vez elas nem entraram direito no saco da barraca, tive que deixar algumas coisas de fora, mas tudo bem. O importante é que eu consegui carregar tudo. Só que mais uma vez tive que ir em busca de uma padaria pra comer alguma coisa, pois fazer 16km logo cedo sem comer não tem jeito. Fiz um bem reforçado, sanduíche, croissant e, como não poderia deixar de ser, pain au chocolat, tudo isso por 4,70€. Já eram quase 10h quando fui seguindo as placas que indicavam como chegar a Beaugency de bicicleta, o percurso tem 16km e é bem demarcado. Comecei por um caminho de asfalto no meio de uma floresta, com algumas plantações, campo aberto. De repente comecei a ver duas chaminés enormes. Cada vez elas estavam mais perto. E como o ritmo da pedalada era bom, não demorou muito até eu chegar na borda do rio, onde haviam alguns pescadores, e a usina nuclear de geração de energia. Eu nunca tinha estado tão perto de uma. E ela é gigante. Estava funcionando a meia força, saia fumaça de uma chaminé. Sei lá, dá medo essas coisas, mas acho que eles tem um bom controle de segurança, ainda mais depois dos famosos acidentes ocorridos em alguns lugares. O percurso continuava por dentro de cidadezinhas e trilhas entre muros centenários, coisa que só vê quem faz de bicicleta mesmo. Depois passava por uma plantação de milho, coisa comum por aqui, e mais floresta. Aí peguei um trecho mais no final de uns 2km de chão batido mesmo. Mas não tive problemas em andar, mesmo carregado. E logo pude ver a cidade de Beaugency, depois de 1h de pedalada e 18km percorridos, 2km a mais porque fui em busca da padaria. Chegando lá, fui até o Office de Turisme que estava fechado, então resolvi explorar a cidadezinha na raça mesmo. Filmei os pontos principais e comi um Éclair de café. Esse doce é como a nossa bomba ou carolina, só que bem maior, mais comprida, e com muito recheio, é uma bomba calórica e de açúcares, muito bom pra quem pedala, paguei 1,45€, acho que foi a mais cara até agora.
Numa passagem encontrei um banheiro meio sujo, mas como eu só queria desaguar mesmo, fui lá. Quando saí tinha um senhor de bicicleta que veio falar comigo, perguntar da bicicleta, da viagem, de onde eu vinha, pra onde eu ia, o que eu fazia, de profissão, essas coisas. Ficamos falando do Brasil, de futebol, de bicicleta, da França, foi muito legal isso. Ele era bem animado.
Logo depois segui até Orléans, dessa vez pela N152 mesmo, pra chegar mais rápido. E foi bem tranqüilo mesmo, meio dia eu estava na entrada da cidade. Tinha visto que na cidade vizinha havia um camping, mas antes fui até o centro, pra conferir no Office de Turisme se era o único e o mais perto. Realmente era. Voltei até o camping, uns 5km, mas a recepção abriria só as 17h, e mal eram 13h. E li nos papéis da parede que antes era preciso fazer o registro, porque se não eu ia montar a barraca de deixar as coisas aqui, pra ir com menos com peso. Voltei ao centro, comi um Kebab, creio que o último da viagem. Acompanhado de fritas e uma latinha de coca, claro, por 5€. E esse era bem generoso. Fiquei comendo e vendo TV, canal TF1. Vi uns comerciais, é tudo meio parecido no mundo todo, na TV nada se cria, tudo se copia. Isso em todo o mundo, não só regionalmente, em cada país. Tem os reality shows, jornais, programas de entretenimento, comerciais estranhos, tudo igual.
Fui filmar a cidade antes que chovesse, porque vinha vento do lado de nuvens escuras. A hora que saí deu uns pingos, mas logo passou, alarme falso. Em contrapartida isso queria dizer que logo mais vinha com mais força, porque já aconteceu isso antes. Esperei um pouco, e já eram quase 14h. Filmei os principais pontos da cidade pelo o que eu ia vendo no mapa, e a cidade é muito linda, pequena, sem contar o fato de ser domingo, tudo vazio, fechado. Foi bem rápido pra fazer, sem problemas. Só a hora que choveu mesmo, esperei um pouco, mas foi bem rápido. É bom, porque estou perto de Paris, e espero que amanhã não chova, pelo menos na hora que eu for de uma Gare a outra, se não, vai molhar um pouco.
Avenida Joana D'Arc e ao fundo a Catedral imponente de Orléans
Como eu tinha um tempinho sobrando, fui usar a internet numa lan house, ver se encontrava o meu amor online de novo, mas dessa vez não deu certo, domingo de manhã, lá eram umas 10h, ela estava fazendo algo melhor que isso. E também nem devia imaginar que eu entraria na internet novamente. Mandei um e-mail pra ela, outro para o Alexandre da CVC e aproveitei pra transferir as fotos da câmera para o cartão do Pocket. Ainda cabiam umas 20 fotos, mas achei melhor aproveitar o momento e zerar. Vai que eu preciso de um pouquinho a mais depois. Já que eu ia pagar 3€ pra usar mesmo, já fiz tudo.
Depois aproveitei pra gastar os meus últimos 4 minutos do cartão telefônico e liguei para o meu amore. Eu estava numa cabine telefônica ao lado da Catedral de Orléans, famosa e imponente. E como muitas outras construções, em reforma. Ainda bem que dessa vez deu certo, ela mesma atendeu, falamos apenas um pouco, mas foi um pouco bem intenso, muito bom poder ouvir a voz dela, e matar um pouco da saudade. Ela disse que bateu o carro, estou louco pra saber melhor essa história como que é, porque nem deu tempo pra falar isso, tínhamos coisas melhores a falar. Mas passou voando esses 4 minutos. E agora nem sei quando falarei novamente, acho que só quando chegar em Sampa. Mas o importante é que não falta mais muito para voltar pra casa, aí tudo volta ao normal, a rotina que às vezes é boa também. Mas acima de tudo, estar perto do meu amore.
Já tinha feito tudo, visto tudo o que queria, era hora de ir ao camping. Cheguei lá perto das 16h30 e fiquei esperando. De repente um senhor veio falar comigo e disse que eu poderia montar a barraca e depois fazer o registro. Eu achei que poderia fazer isso também, mas tava escrito aquela porcaria. Então ele me mostrou um outro papel que dizia que poderia montar e depois fazer o registro. Que boston, e eu fui e voltei, fiquei preocupado e carregado à toa, mas é assim, vivendo a aprendendo. Acabei de montar a barraca e guardar as coisas, a recepção abriu, fui lá, paguei 5,5€ e perguntei onde tinha supermercado. Ela me deu um mapinha que ela mesma fez, xerox, mas o problema é que nada abre hoje. Não teve jeito, fui jantar no McDonald's. Escolhi o Big Tasty, que é o melhor custo benefício e ainda ganhei outro copo, amarelo agora. Acho que fico com esse e dou o outro pro meu amore, não sei ainda. Gostei desse amarelo desde que vi na foto. E aqui foi 0,10€ mais barato que o último, paguei 6,70€. Depois do jantar, passei na padaria comprar umas coisas (4,10€) pra comer amanhã, porque não sei se dará tempo de comprar alguma coisa no caminho. Tenho que levantar, arrumar as coisas e ir pra Gare. Subir a bike no vagão, sei lá, melhor deixar garantido. Com a comida garantida posso comer durante o trajeto até Paris, porque lá vai ser pior ainda. Mais pauleira. E creio que terei que comprar alguma coisa no trem mesmo, espero que tenha o vagão de restaurante, ainda mais que é uma viagem longa, deve ter sim. Tem umas coisas boas, quentes. Um pouco caras, mas qual o preço de comprar comida num trem em movimento, não é mesmo?!
Estátua da Joana D'Arc, no centro de Orléans
Depois de ter feito tudo isso, já passava das 19h, resolvi levar o Pocket até o banheiro, porque tem uma bancadinha muito boa pra apoiar e usar na tomada, assim posso escrever durante um bom tempo sem me preocupar e ainda deixo a bateria cheia. Eu tinha muita coisa escrita em papéis e precisava passar a limpo, pra não acumular muito e perder muitos detalhes quando fosse escrever o diário. Fiquei umas 2h em pé escrevendo, mas valeu a pena, porque foi de graça. E ficar meio corcunda dentro da barraca também não é nada bom.
Hoje andei até que bastante, nesse vai e vem do centro-camping, totalizando 74,33km em 4h24. E os gastos totais foram de 27,45€, hoje foi bom, abaixo dos 30€ estipulados por mim mesmo. Sendo que eu queria manter a média assim, hoje foi o esquema. Deu tempo pra me organizar, ver o trajeto que farei em Paris e ainda coloquei o diário em dia. Depois disso tudo, descansei bem. Foi muito bom aqui em Orléans.
O descanço merecido, no último dia na França, antes de voltar pra casa...