Relatos de viagens ciclísticas.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Sexto dia: rumo a Strasbourg


Finalmente eu vou de uma cidade importante a outra só de bike. Mesmo tendo feito 110km em um dia, irei fazer mais uns 70 pra chegar a Strasbourg, mas essa é a intenção da viagem, andar de bike.
O clima estava bom, levantei cedo, bebi bastante água e pedi informações para o recepcionista do hotel. Ele anotou e até fez um mapinha da direção que eu deveria tomar, foi bem preciso, inclusive dizendo que teria uma subida no início, mas depois seria descida e plano, sem contar a floresta que eu teria para me dar sombra. E foi isso mesmo, muito bom.
Passei por Niderviler, Lutzelbourg e parei em Saverne, que era mais ou menos no meio do caminho. Aproveitei pra comer alguma coisa, encontrei uma creperia aberta e pedi um chamado Jaune, que vinha presunto, ovo e queijo Gruyère, por 4,5 euros. A princípio achei meio caro, mas eu estava com fome, precisava comer algo pra me sustentar e foi muito bem escolhido. Primeiro veio até uma saladinha de alface com uma fatia de tomate e um molho a base de azeite e limão muito bom, tudo aqui pra comer é muito bom sempre, em qualquer lugar que se vá. Tomei água da torneira pra não gastar mais e também porque precisava me hidratar, se eu tomasse suco ou refrigerante acabaria com mais sede.

O dono lá foi muito atencioso e me informou que estava tendo um encontro de cavaleiros na cidade. Como já era quase meio dia, eu tinha acabado de comer e a cidade me pareceu muito linda, resolvi ficar mais um pouco. Dei uma voltinha, tirei algumas fotos, peguei umas imagens e acho que foi muito bom ter ficado um pouco lá. Gostaria de poder ficar mais tempo em cada lugar, mas como a minha intenção é ver vários lugares, não tem jeito, tenho que fazer isso mesmo.
Então resolvi continuar a viagem e pedi informações para algumas pessoas, porque as placas me levariam a autoroute. Foi aí que descobri uma coisa realmente interessante, que em toda a extensão do canal de Marne au Rhin tem uma ciclovia, chamada de ciclable. E realmente as pessoas se utilizam disso pra andar, encontrei muitos e muitos ciclistas passando por lá. Sozinhos, com a esposa, com filhos, jovens, adultos, idosos, tanto faz, todos passam por lá. E de repente minha reserva de água estava chegando ao fim bem na hora que avistei uma base de barcos onde tinha uma torneira, parecia miragem causada pela desidratação, mas era real. Reenchi as garrafas e, com essas reserva extra, pude ir até Strasbourg. Apesar do caminho ser bem plano, algumas vezes não tinha sombra e/ou tinha vento contra, o que dificultava e fazia cair a média de velocidade e aumentar o esforço durante a viagem. Inversamente proporcionais e pra isso é preciso ter em mente sempre que eu posso, eu consigo. Tanto que saí de Sarrebourg lá pelas 8h30, 9h, e cheguei a Strasbourg somente às 16h, depois de ter percorrido pouco mais de 80km, contando o trajeto, a visita a Saverne e, como sempre, umas andadas a mais porque me perdia. Cheguei em Strasbourg e vi que não seria fácil encontrar o albergue, mesmo porque pela experiência que tive em Nancy, essa grife sempre coloca numas regiões não muito centralizadas. Segui as torres da igreja e parei num posto de gasolina, comprei um mapa da cidade. Aí foi mais fácil. Me localizei e segui a direção para o albergue. O bom é que tem sempre tem a ciclovia, então não tive problemas em chegar. Eu tinha como ponto de referência um cemitério. Cheguei até ele, mas vi que eu estava do outro lado. Então atravessei-o. E como não tinha nenhuma placa indicando que não era permitida a entrada de bicicletas, não tive problemas. Logo depois eu estava no albergue, guardei as coisas, paguei duas noites, tomei um banho e logo depois chegou um cara no quarto. Ele perguntou que língua eu falava, aí eu disse que era brasileiro, porque vi que ele não falava francês, preferia o inglês, então ele disse: você também é brasileiro?
Pois é, a gente viaja 10.000km pra encontrar um brasileiro perdido em Strasbourg, no mesmo albergue, no mesmo quarto. Não falei muito com ele, porque ele foi dar uma volta pela cidade, acho que amanhã ele já segue viagem, pois na verdade ele está fazendo intercâmbio na Alemanha e como só se pode viajar aos finais de semana ele tem que correr. Mas espero poder entrevistá-lo.
E eu saí pra comer alguma coisa, afinal passei o dia a base de Pringles, waffer, Langue de Chat (um tipo de biscoito) e o crepe. O problema é que o restaurante abre só as 18h30, então comi um quiche de Lorraine e um Pain au Chocolat, foi bom pra dar uma amenizada no problema, depois eu vou ao restaurante e como decentemente. Ainda mais que começou a chover, então voltei ao quarto pra fechar a janela, porque está muito quente lá dentro, é no segundo andar, pega sol o dia todo. Mas tranqüilo, eu agüento! Mesmo depois de ter rodado 90km em 5h só de pedal, sem contar o tempo pra descançar, comer etc. Não sei se é bom ou não, mas pelo menos vou ficar hoje e amanhã aqui, depois vou pra Genebra, se tudo der certo, visito a Amanda e a Ana Paula e, quem sabe, terei abrigo.
Realmente estava muito quente no quarto, que dificuldade pra dormir, meu Deus...
Bom, agora pelo menos eu já podia ir jantar. Dessa vez não quis economizar, mesmo sabendo que poderei ter problemas mais a frente quando o dinheiro começar a acabar, mas depois de ter pedalado 200km em dois dias, acho que eu merecia uma recompensa pelo triunfo alcançado. Fui no restaurante aqui perto que a moça do albergue indicou, realmente não era muito caro, então eu pude pedir várias coisas, o que no final acabou saindo caro. O restaurante é de indianos, aliás, tem muitos indianos por aqui. O nome do restaurante é Aux Deux Gouts, nome bem sugestivo. O restaurante fica na 56B, route de Schirmeck. Acho interessante os nomes das ruas aqui, por exemplo essa, quer dizer que vai para Schirmeck. Tem a rue D'Église, ou seja, a rua da igreja, e assim por diante. Mas claro que nem todas tem um significado desse tipo. Como eu estava cansado e com fome, foi nesse restaurante mesmo. E estava tudo muito bom, o atendimento, a comida e a bebida. Pedi um vinho Pinot Noir produzido na Alsace, meia garrafa, uma salada indiana que tinha um queijo branco feito por eles mesmo e água da torneira, claro. Depois ainda um filet mexicano com batata frita e mais um pouco de salada. Vinha um molho muito bom por cima da carne, bem apimentado, que nem a salada da entrada, fiquei com calor, mais que o normal, bebi bastante água e passou depois. Nem sei como comi tudo aquilo, as porções eram bem generosas. Se eu tivesse pedido somente o filet já tava bom, mas eu precisava comer. Não tinha me alimentado bem durante o dia, o problema é que comi tudo de uma vez só. A conta saiu um pouco cara, porque eu não tava a fim de sair procurando lugar pra comprar comida, então gastei 26,90 euros num jantar. Mas degustei coisas locais, foi muito bom. Daqui pra frente tenho que economizar porque ainda tenho que comprar umas passagens de trem e pagar os albergues ou hotéis, caso não encontre nada. Qualquer coisa também, durmo numa praça, estação de trem, sei lá.
Voltei pro quarto e fiquei conversando com o meu colega gaúcho. Fiz a entrevista com ele e logo depois fui dormir, mas isso já havia se passado algumas horas, fui dormir lá pelas 22h.