Relatos de viagens ciclísticas.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Quarto dia: Rumo a Nancy


Acordei cedo, um pouco antes das 8h, tomei café e fiz a entrevista com o Ron. Arrumei o que faltava e fui pra Gare du L'Est. Cheguei até relativamente cedo, mas melhor do que perder o trem.
Aproveitei pra ligar na KLM confirmar o embarque da bicicleta na volta ao Brasil, pra garantir. Depois fiquei esperando, mas foram uns 20 minutos apenas.
O trem logo chegou e aquele monte gente embarcou. Eu fui perguntar pra um cara onde que eu poderia subir com a bicicleta, mas ele não falava francês, então, mais uma vez eu treinei o inglês. Depois desses dias em Paris meu inglês melhorou bastante.
Tentei subir a bicicleta, mas estava pesado, aí um alemão me ajudou. Porque o trem ia de Paris até umas cidades na Alemanha, e mesmo Nancy tem muito alemão e gente que fala alemão.
Deixei a bike lá e sentei em frente, pra poder vigiar e ver se ela não ia cair. A viagem toda ela e eu, sempre juntos. Sem contar que a viagem foi mais rápido do que imaginei. Em 2h30 eu já estava em Nancy, achei que fosse demorar umas 3h e pouco. O trem vai bem rápido em relação aos que eu vejo no Brasil, fico imaginando o TGV, qualquer dia pego um.
Nancy é uma cidade encantadora. Por ser pequena vi tudo o que tinha que ver bem rápido, no centro tem tudo. Como eu já tinha visto os principais pontos no guia da Folha e na internet, fiz uma lista do que ver e filmei tudo bem rápido. Já estava meio cansado, fui procurar o albergue.
Mas antes disso, aconteceram uns lances engraçados, como uma senhora que veio me perguntando as horas e ficou falando do filho dela, que viria não sei de onde e quando eu disse que era brasileiro ela até me cumprimentou com abraço e beijo, fiquei meio chocado com a reação, mas achei muito legal isso. Ela simpatiza muito mesmo com os brasileiros. Aí ela disse que ia me ajudar, perguntou o que eu queria saber, eu disse que gostaria de saber onde ficava a rua do albergue, mas ela não sabia informar, aí ela correu atrás de um homem perguntando, ele veio explicar e tal.
Passei por uma fortificação, La Grande Rue, a igreja que está em reforma, mas que é muito linda e um parque também muito lindo. Inclusive os parques todos aqui são maravilhosos.
Depois disso fui em busca do albergue. Fiquei mais de 2h procurando. Parei numa casa onde um homem estava fazendo um móvel, ele pegou até o mapa pra ver onde era, anotei as ruas que deveria pegar e fui. Mesmo porque eu estava indo para o lado contrário, quase saindo da cidade. Atravessei a cidade toda de volta, dessa vez descida, já que eu havia subido muito. Mas não encontrava de jeito nenhum essa rua. Fiquei rodando que nem barata tonta, perguntava para as pessoas na rua, elas me indicavam, eu ia, mas não era. Eu parei pra perguntar pra um senhor, ele logo me perguntou se eu era alemão. Falei que era descendente apenas. Numa avenida parei em um ponto de ônibus que tinha uma mapa, e perguntei pra uma moça que avenida eu estava, porque nem todas tem placas em todas as esquinas, aí fica muito difícil encontrar as ruas. Diferentemente de Paris que tem bastante indicação eu ainda tinha o mapa, aqui não.
Eu não estava longe, mas era um pouco diferente do que achava que tinha que fazer pra chegar, peguei umas subidas, cansei, mas foi bem recompensador. O lugar é lindo, é um castelo antigo com um grande jardim e ainda consegui um quarto com uma cama só, então saí pra fazer umas compras de mantimentos, aproveitei e levei um vinho.
A moça que atende foi muito gentil, me ouviu e ajudou a entender e falar as coisas, diferente do pessoal de Paris, que logo que não entende, pergunta se eu falo inglês, mas eu não quero saber de inglês, quero falar em francês, mesmo que não entenda bem o que eles dizem. Mas acho que estou me acostumando já. Ainda mais que aqui no interior, o pessoal não sabe falar inglês muito bem, então eles se esforçam no francês mesmo.
Meio dia, por exemplo, parei numa barraquinha pra comer um sandwish, bem mais barato que em Paris, o cara veio falar comigo, perguntar de onde eu vinha, pra onde ia e tal. Falei com um casal de namorados, eles também não falavam inglês muito bem. Com ambos consegui me entender e creio que me fazer entender também.
Eu até usei um dos banheiros públicos pra ver como era. Eu achei a idéia bem interessante, mesmo tendo que pagar 30 centavos de euro.
Voltando ao albergue, ainda pude usar a internet sem pagar nada por isso, mas foi no computador dela, com teclado azerty e só e-mail. De qualquer forma foi muito bom, porque pude ler o que chegou e mandar mais um para o meu amore. Amanhã eu procuro algum lugar wifi ou uso novamente um outro qualquer, ainda mais de graça, e mando mais notícias para o pessoal.
O meu jantar hoje foi basicamente um litro de achocolatado, pra repor as energias, um sandwish de frango com umas coisas boas e água. O vinho ficou pra depois. Tomar uma garrafa de 3 euros de um chardonnay, vin de pays d'oc, mas que é muito bom. Difícil achar um vinho assim no Brasil por 9 reais. O problema daqui é que a água, os refrigerantes, sucos e cervejas são caros e vem quente. Se bem que em Nancy paguei 1,50 euros a Coca Light, um pouco menos que Paris. E a água eu vou enchendo nos parques da cidade. É bom que não fico desidratado e nem sem dinheiro, porque se for ver, eu teria que gastar uns 6 euros por dia só em água, assim não gasto nada e ainda visito os parques.
Agora acho que realmente começou a minha viagem pela França, aquela França onde tem franceses que falam francês e tem orgulho de ser, porque Paris tem muito turista, é tudo lotado, gente pra tudo que é lado, é uma capital, uma cidade grande e cosmopolita, muito boa, linda e relativamente limpa, mas as pessoas só pensam do boulot, metro, dodo. Trabalho, metro e dormir. Como em qualquer grande cidade do mundo, várias opções de entretenimento, compras, lugares históricos que acabam passando batido pra quem vive na cidade, servindo apenas para os turistas.
Amanhã acordo, tomo café da manhã, espero que seja melhor do que o pão com manteiga do albergue de Paris, mas de qualquer forma tenho mais mantimentos para a viagem, porque irei pedalar uns 90-100km amanhã até Sarrebourg ou outra cidade que eu chegar. Vamos ver no que isso vai dar. Porque uma coisa é ir de trem, de uma gare a outra, e diferentemente é ir de bike, sem saber direito o caminho a seguir, ainda mais que não posso andar pelas autoroute. Vou perguntar pra moça daqui, ela é realmente bem cordial.
As minhas considerações finais de hoje são sobre o tempo e a saudade. O tempo realmente está voando, nem parece que já é quinta-feira e que daqui a pouco acaba o mês, meu amore volta ao Brasil, mais 20 e poucos dias eu volto e tudo volta ao normal. Isso é bom porque irei rever o meu amore e não tão bom porque volto a rotina do trabalho, mas faz parte, pra poder pagar as contas da viagem.
Amo o meu amore, estou com muitas saudades e não vejo a hora de poder revê-la, tirar o atraso de tudo e trocar as experiências da viagem.